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Contudo, houve momentos  em  que os cristãos  não escutaram
          profundamente este apelo, deixando-se contagiar pela mentalidade
          mundana. Mas o Espírito Santo não deixou de os chamar a manterem
          o olhar fixo no essencial. Com efeito, fez surgir homens e mulheres
          que, de vários modos, ofereceram a sua vida ao serviço dos pobres.
          Nestes dois mil anos, quantas páginas de história foram escritas por
          cristãos que, com toda a simplicidade e humildade, serviram os seus
          irmãos mais pobres, animados por uma generosa fantasia da caridade!


            Dentre todos, destaca-se o exemplo de Francisco de Assis, que foi
          seguido por tantos outros homens e mulheres santos, ao longo dos
          séculos. Não se contentou com abraçar e dar esmola aos leprosos, mas
          decidiu ir a Gúbio para estar junto com eles. Ele mesmo identificou
          neste  encontro  a  viragem  da  sua  conversão:  «Quando  estava  nos
          meus pecados, parecia-me deveras insuportável ver os leprosos. E
          o próprio Senhor levou-me para o meio deles e usei de misericórdia
          para com eles. E, ao afastar-me deles, aquilo que antes me parecia
          amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo» (Test
          1-3:  FF  110).  Este  testemunho  mostra  a  força  transformadora  da
          caridade e o estilo de vida dos cristãos.

            Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa
          obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos
          ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência
          em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibi-
          lizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que
          frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro en-
          contro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo
          de vida. Na verdade, a oração, o caminho do discipulado e a con-
          versão encontram, na caridade que se torna partilha, a prova da sua
          autenticidade evangélica. E deste modo de viver derivam alegria e
          serenidade de espírito, porque se toca com as mãos a carne de Cristo.
          Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o
          seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão



          88              GRAÇAS DO PADRE CRUZ SJ
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