
Este é o nosso último número deste ano de 2005. Ainda estamos em Outubro e Dezembro ainda está longe. Mas não queremos deixar de fazer uma referência ao Natal, que o Santo Padre Cruz desejava que fosse um nascimento espiritual onde nos tornássemos verdadeiros filhos de Deus, irradiação da luz do Verbo no mundo.
O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO
No mistério da encarnação, Deus fez-se humano como nós para que nós nos tornemos divinos como Ele.
Em cada Natal celebramos o nascimento humano do Filho de Deus. Há dois mil anos, o nosso Deus veio ao nosso encontro, fez-se um de nós. A esse acontecimento nós chamamos Encarnação do Filho de Deus. Esta é a novidade da religião cristã: Deus fez-se humano, tornou-se carne, isto é, assumiu a natureza humana e a matéria do mundo. É o escândalo, a pedra na qual tropeçam muitas pessoas que não crêem que o Deus omnipotente possa humilhar-se tanto. Estamos aqui no interior do mistério mais íntimo da nossa fé. Não há argumentos filosóficos, teorias científicas, raciocínios lógicos que consigam explicar isso. Só pela graça da fé podemos chegar ao entendimento dessa gratuidade de Deus. O povo judeu, que fora preparado para receber o Messias, não imaginava que o próprio Deus viria até nós assumindo a natureza humana. Não entendeu o mistério da Encarnação. Diz o evangelista João: "Ele veio para o que era seu e os seus não o receberam".
No entanto, alguns poucos judeus, os discípulos e as discípulas de Jesus, no passo sublime e difícil da fé, reconheceram que aquele homem de Nazaré não era um homem qualquer. Tão humano assim só poderia ser Deus. Em Jesus, revela-se a humanidade de Deus. No amor aos pobres, na acolhida aos pecadores, na cura oferecida aos doentes, na valorização das mulheres, na superação dos preconceitos, na companhia com os marginalizados, na denúncia contra os poderosos, na condenação de uma religião perversa e desumana, no anúncio do Reino da paz e da justiça... Tão humano assim, nenhum ser humano é, nunca foi e nunca será! Tão humano assim só Deus pode ser, só Deus consegue ser. Jesus de Nazaré é Deus em carne humana, Deus feito um de nós, Emanuel, Deus connosco! Alguém que morreu pela fidelidade ao Reino de Deus, não fraquejou diante das perseguições, foi fiel até ao fim e deu a vida por amor... alguém assim só pode ser Deus! Foi isso que os escritores do Novo Testamento, os autores dos evangelhos ou das cartas, nos transmitiram. E é nisso que cremos quando celebramos o Natal.
Conhecendo a humanidade de Deus em Jesus Cristo, podemos entender a humanização, a Encarnação do Filho de Deus. É claro que só pode entender o mistério da Encarnação quem tem a graça de crer no mistério da Santíssima Trindade. Nós cristãos cremos que o nosso Deus não é uma Pessoa sozinha e solitária. Cremos que Deus é uma comunhão de amor, uma comunidade de vida, uma família de três Pessoas distintas que vivem desde sempre, que se amam tanto e tão bem que são um só Deus. Uma das Pessoas divinas, o Filho eterno de Deus Pai, fez-se homem em Jesus de Nazaré. Ele não é um homem qualquer. Nem mesmo um homem tão santo e justo, um ser iluminado, que foi elevado à condição divina, como pensam os espíritas. Nós cristãos cremos que ele sempre existiu com o Pai e o Espírito Santo na Trindade divina. Ele não começou a existir quando nasceu do ventre de Maria. Já existia antes com Deus e como Deus. E quando se fez homem, não o fez em aparência, como se fosse um Deus fantasiado de homem. Ele não cumpriu apenas um papel, como se fosse um actor que faz as vezes de um personagem, como pensam os gnósticos. Nós cristãos cremos que a humanidade de Deus é algo bem real. Do início ao fim, Jesus viveu os limites e as fraquezas, as obscuridades e as angústias de um ser humano. A única diferença entre ele e nós é que ele nunca caiu no desumano do pecado. Em Jesus de Nazaré, o Deus todo-poderoso e senhor do universo faz-se homem. Sem deixar de ser Deus, ele rebaixa até à condição humana. Deus se faz humano, para que nós nos tornemos verdadeiramente humanos e assim possamos tornar-nos participantes da vida divina. E seremos humanos, não pela prepotência e arrogância dos egoístas, mas pela humildade e ternura dos que estão dispostos, como Jesus, a servir e a amar até ao fim.