Desejo de oração contínua

 

Desde bem novo senti o apelo a rezar. Já nos primeiros tempos de Seminário me habituei a rezar, a passar pela Capela, a estar com Jesus. Depois, desculpa a confidência, meu caro amigo, Jesus ia-me ensinando a rezar mais e melhor, a ter gosto pela oração, a começar a fazer vigílias de oração noites inteiras. Sentia-me bem com Ele, o Amigo da minha alma. Gostava, sempre que podia, de estar com Ele presente no sacrário. Parece-me, ao contrário de outras pessoas, que é aí que O encontro melhor. Ele está realmente presente e eu habituei-me a ir para junto do sacrário e rezar o tempo que posso. Ainda agora, apesar da minha idade, faço assim. Jesus parece que gosta disto e vai-me recompensando com luzes e graças que tu nem imaginas. Mas acredita que se eu as quisesse contar não era capaz. O mais íntimo, os maiores dons, as graças maiores, não somos capazes de as dizer aos outros. Quantas confidências e “revelações” Jesus me ia fazendo com amor infinito. Como conversávamos tanto os dois, nessas longas e fecundas horas de diálogo!!! Até parece que não me cansava de estar de joelhos horas seguidas, com Ele, ali no sacrário, em doce intimidade. Ele diz-me tantas coisas, ensina-me tanto, segreda-me coisas tão belas. E eu sinto-me inebriado pelo seu amor, bafejado pela sua presença, pela sua amizade, pelo seu carinho. Que horas, que noites, que vigílias maravilhosas!!! E, depois, sabes, meu caro amigo, mesmo fora da Capela procuro unir-me a Ele. Daqui mesmo, nesta sala, estou quase sempre unido a Jesus no sacrário. Nas viagens, de comboio, de camioneta ou de carro, sempre que vejo uma igreja, não consigo deixar de me unir ao meu Amado Jesus, o Tudo da minha vida, o meu tesouro, a pérola preciosa da minha existência. E parece, acredita, meu caro amigo, que nunca me canso de estar com Ele, de O contemplar na custódia, de O amar em cada sacrário. São os momentos íntimos da “odisseia de amor”.

Comecei a gostar muito da oração que o Anjo ensinou aos Pastorinhos, na Loca do Cabeço. Falei com os Pastorinhos logo a seguir às aparições, confessei a pequena Lúcia, e fiquei sempre muito ligado a Fátima e à sua mensagem de oração e conversão. Falei dela muitas vezes por esse Portugal inteiro e comovia-me como o povo aceitava tão bem Nossa Senhora, a sua imagem, a sua mensagem. Sempre que posso, prostro-me e rezo muitas vezes essa oração. Dá-me gosto pensar que foi o Anjo que a ensinou e, apesar de às vezes me custar, faço prostração, sobretudo quando estou sozinho, e rezo unido ao Anjo. E às vezes choro ao pensar nos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. E também me comovo muito quando repito as palavras “ultrajes, sacrilégios e indiferenças” com que Jesus é ofendido no sacramento do seu amor. Dói-me muito saber que há sacrilégios. Fere-me o coração pensar nas profanações dos sacrários. A minha alma fica gemendo de dor ao pensar nas indiferenças, sobretudo dos sacerdotes e dos religiosos, nós que fomos consagrados para amar mais e melhor. Às vezes, comovo-me e choro ao repetir a oração, prostrado por terra. Mas sinto bem cá dentro que a Santíssima Trindade fica contente e que Jesus Eucaristia me faz sentir muito a sua presença, a sua consolação e a sua graça. Cada vez me convenço mais que é muito agradável a Deus o sentido da vida reparadora, da oração de reparação. Peca-se muito. E o pecado é traição ao amor, negação do amor louco do nosso Deus, que foi à cruz e à morte. Por isso me sinto convidado, creio eu, pelo Espírito Santo, a reparar, a fazer horas de adoração e reparação, a promover isso mesmo nas paróquias onde prego. Precisamos de ser um povo reparador, pois o Amor não é amado. Como não querem que eu chore, como não querem que eu reze, como não querem que eu passe noites a rezar se há tanto pecado e o meu Amado é tão ofendido?...

Vês este livro de capa preta? É o Breviário, o meu fiel companheiro. Para onde quer que vá, anda sempre comigo. Mesmo quando me quiseram fazer uma pintura e tive, contra minha vontade, de estar ali parado por um tempo para que o pintor pudesse pintar, lá estava na minha mão direita o meu Breviário. E nas fotografias que me tiram ele fica sempre também. Não o largo nunca e anda sempre comigo para todo o lado. No Breviário encontro o meu alento, o meu alimento, a minha força, a melhor matéria para a minha oração. Os salmos, as leituras, as antífonas, tudo me serve de oração, de meditação, de alimento. Não o largo nunca. Tu, meu caro amigo, sabes que os padres temos obrigação de rezar o Breviário, mas eu não o faço só por obrigação, mas por gosto. Encontro nele aquilo que preciso em todas as horas, para alimentar a minha alma. Que me lembre, nunca deixei, até agora, um só dia, sem o rezar todo. Como podia eu passar sem ele? Como podia eu deixar o meu fiel companheiro? Preciso dele para aguentar as dificuldades da vida. Ele dá ânimo à minha alma, paz ao meu coração, luz à minha inteligência, alimento para a minha reflexão. Nem sonhas quanto devo a este pequeno mas grande livro. Fiel companheiro sem o qual eu não resistiria a tantas tentações, dificuldades, provas. Sem ele, sem a sua oração, eu não conseguiria ser o que sou. Deus, na sua Providência divina, foi fazendo que ele entrasse na “odisseia de amor”.

Não te queria maçar muito, meu amigo, mas gostava ainda de partilhar contigo uma experiência bonita da minha oração. Olha para esta fotografia. Como vês, com o Breviário está o terço. Pois o terço é uma das minhas “paixões”. Digo mesmo “paixão”, pois é algo que me dá gosto, que me apanha por dentro o coração, me entusiasma a alma: rezar o terço, rezar o rosário. Nunca me fico só por um terço ou mesmo por um rosário. Não me canso de passar as contas e contemplar os mistérios. O rosário ajuda-me a ter mais presente a história da salvação, o amor de Deus na vida dos homens. O rosário faz-me contemplar Jesus e Maria, os seres que eu mais amo. O rosário mergulha-me na “odisseia de amor” de Deus por mim, pela Igreja, pela Humanidade. Como me podia eu cansar de rezar o rosário? E, desculpa a confidência, há dias em que rezo vários rosários, sobretudo nas viagens e de noite, quando estou só e roubo ao sono mais tempo para rezar mais. Rezo-o nas celas das cadeias, com os presos e as presas. Rezo-o à cabeceira dos doentes, com eles e com a família. Rezo-o quando visito e estou com as famílias. Rezo-o na camioneta e peço aos viajantes que me acompanhem. Rezo-o no comboio e procuro que as pessoas que vão na minha carruagem rezem comigo. Rezo-o nas viagens de automóvel e quando elas são longas dá para rezar vários rosários. Rezo-o pelos caminhos, aí nas ruas de Lisboa ou de outras cidades, vilas ou aldeias. Não perco ocasião, oportunidade para rezar o terço e, se possível, o rosário. E nas festas marianas, na novena da Imaculada, nos meses de Maio e Outubro, faço-o ainda mais vezes e com mais empenho. Nossa Senhora bem o merece e o mundo precisa. Ela em Fátima pediu muitas vezes que rezássemos o terço, não foi, meu caro amigo? …

Quando me vêm pedir para rezar pelos doentes, por um problema familiar grave, por uma situação embaraçosa, convido-os logo a rezarem comigo um terço. E eles vão-se habituando a rezar e, depois, até gostam de o fazer. O terço, o rosário é uma verdadeira arma, é a força que vence a Deus e alcança dons e graças, é oração prodigiosa. Nunca nos devíamos cansar de o rezar. Um, dois, três, um rosário ou até mais cada dia. Eu penso que eram estes terços e rosários, rezados sem cessar, que alcançavam as graças para as pessoas. Depois dizem que eu faço milagres, mas não é verdade. Quem faz os milagres é a força da oração, é a maravilha do rosário rezado com fé, muitas vezes, com perseverança. A “odisseia de amor” de Deus também passa pela oração do rosário. Quem não acredita que experimente e verá maravilhas do amor.

Outra oração que me faz ainda hoje empolgar o coração é a Via Sacra. Rezo-a todos os dias e não me canso de meditar a Paixão. Esta é um resumo maravilhoso do amor. É verdade que contemplo os sofrimentos, os escarros, o sangue derramado, as chicotadas, os espinhos da coroa que Lhe furavam a cabeça, que contemplo as humilhações e os opróbrios, mas o mais importante para mim foi sempre, e é ainda hoje, pensar, meditar no amor “louco” de Jesus enquanto sofria. E não consigo, muitas vezes, mesmo quando rezo a Via Sacra sozinho, não chorar, comovido ao pensar no amor e na dor, no amor que O levou a sofrer tanto, nas dores que são testemunho do seu amor por nós, por mim. Mesmo quando agora estou mais adoentado e não posso sair de casa, não deixo de rezar a Via Sacra. As vezes, fico muito tempo a saborear cada estação. São as loucuras do amor do Amado, são as loucuras que o Redentor sofreu por nossa causa. Olha, meu caro amigo, muito grave deve ser o pecado para que Jesus tenha de sofrer tanto. Muito graves devem ser aos olhos de Deus os pecados, os males, os crimes da humanidade, para Jesus sofrer deste modo. Daí o meu gosto em fazer a Via Sacra. E também gosto de a rezar com o povo, sobretudo na Quaresma e nas sextas-feiras, dia dedicado à Paixão de Jesus.

O Crucifixo é o melhor livro da vida. O Crucificado é o maior sinal do amor de Deus. Na Cruz temos o nosso pecado e a misericórdia de Deus. Jesus Crucificado é a vítima de amor que Se oferece por nós e, ao mesmo tempo, a misericórdia que se derrama sobre a humanidade. A “odisseia de amor” passou pela Cruz, pelo grão de trigo que morre para gerar vida, pela oferta do Bom Pastor que Se deixa imolar para que tenhamos vida em abundância. E não querem eles, meu caro amigo, que eu às vezes chore ao fazer a Via Sacra? E não posso deixar de a rezar cada dia, mais ou menos longa, mas sempre o caminho glorioso do amor, do Cordeiro que tira o pecado do mundo, da Vítima oferecida em holocausto. Sempre que puderes, não deixes de fazer a Via Sacra, pois ser-te-á muito útil. Verdadeira graça do amor de Deus, que passa pelo Crucificado. Por isso, eu gostava de distribuir umas pagelas com uma Via Sacra simples, sem muitas palavras mas que ajudasse as pessoas a rezar. Ainda hoje faço isso àqueles que vêm aqui visitar-me ou apresentar os seus pedidos e dores. Tu também queres que te dê uma? Toma lá esta e vai-a rezando com devoção e amor. Coragem, meu amigo, pois cada um tem uma cruz a levar, para seguir o Mestre, e a oração da Via Sacra ajuda-nos muito. Não te esqueças de a rezar de vez em quando, sobretudo nas sextas-feiras, dia em que recordamos a Paixão do amor e do sofrimento de Jesus.

Outra maneira muito comum da minha oração diária, dia e noite, como diz o Salmo, são as jaculatórias. Não me canso de as dizer, de as repetir sem fim, de balbuciar esses gritos de esperança, esses clamores de fé, esses sentimentos de amor. Sempre gostei dessas pequenas jaculatórias, dessas frases pequenas que repito durante o dia e a noite, sempre que não durmo, e durmo sempre tão pouco, para que o meu coração esteja unido ao meu Amado. Nas viagens, no intervalo dos terços ou do Breviário rezo muitas, talvez centenas de jaculatórias. No final da Missa, ao jeito de acção de graças, também me fico a rezar jaculatórias a Jesus Eucaristia, a Maria, ao Pai, umas atrás de outras. E na oração com as famílias, com os doentes ou mesmo na cadeia com os presos, também rezo muitas. Assim me fico absorto em Deus, unido em oração através de jaculatórias que me dão a graça de voar mais alto, de entrar em intimidade. São maneiras de Deus, na sua “odisseia de amor”, me ir conduzindo e conquistando.

Eu sinto que Ele tem sede de mim, do meu amor, do meu coração, da minha amizade. E eu tenho sede, muita sede d'Ele, de viver unido a Ele, de estar em comunhão, de ser um com Ele no amor. Dizem-me que os Santos chamavam a isto “matrimónio místico” e que Santa Teresa lhe chamava “união transformativa”. Se é assim ou não, não sei, meu caro amigo, mas o certo é que cada vez sinto que Deus e eu somos um só no amor. Comunhão amiga de duas pessoas que se amam. Eu sinto que sou amado e procuro retribuir com amor, o melhor e o mais puro de que sou capaz. E Deus não Se deixa vencer em generosidade. Não quis nunca pactuar com a mediocridade. Sempre sonhei uma vida profunda em Deus. E o Senhor vai-me desafiando e concedendo graças que nem sei falar delas. São as divinas partidas de Deus que é rico em inspiração e pródigo em surpresas.

{corpo}