
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Um dia quando os apóstolos viram Jesus orar, pediram-lhe: “Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista ensinou aos seus discípulos”. Jesus atendeu-os e compôs, naquela ocasião, a síntese de todas as orações, o Pai-Nosso.
Podemos encontrar múltiplas definições sobre a oração. “A oração é um impulso do coração, é um simples olhar, lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou no meio da alegria” (Santa Teresinha). A oração cria uma atmosfera divina, dentro da qual nos dirigimos a Deus, dilatando o nosso coração na paz e na alegria, e unindo-nos ainda mais profundamente a Ele. Santa Teresa d’Ávila, doutora da Igreja como Santa Teresinha, diz que a oração seria a elevação da nossa alma, da nossa mente a Deus. Certamente o sentido de elevação, no caso, não é de deslocamento ascendente, pois Deus não se encontra “em cima” ou “em baixo”; significa unir-se a Deus de forma mais elevada, excelsa.
Devemos olhar a oração a partir de Deus, e não a partir de nós, a não ser que olhemos em nós aquilo que Deus realiza. Podemos, então, constatar as suas maravilhas no nosso próprio ser, ao redor de nós, no mundo, na história, enfim, nos acontecimentos alegres e edificantes.
“Nós sentimos saudade de Deus”, diz Santo Agostinho. Mas quando rezamos, esta saudade de Deus é saciada, pela presença actuante daquele que amamos. Na oração, ele visita-nos e preenche-nos das suas emoções e ideias, dos seus ideais, orientações. Ele caminha connosco e fala-nos.
Um outro elemento, que podemos acentuar, é a oração como conversa entre dois amigos, na qual cada um partilha do que é seu: Deus fala das coisas divinas e eu falo da minha realidade humana. Mas ainda aqui, aquele que me dá as condições de falar com Deus é Ele próprio.
Devemos prolongar esse diálogo de amor com Deus pois, quando os amigos se encontram, não têm pressa de terminar. O Santo Cura d”Ars dizia que, quando se está com Deus e se fala com ele, deve-se esquecer o relógio. Como Deus está acima do tempo, o encontro com Ele também deveria ser assim. Esse diálogo de amor enriquece-nos de maneira extraordinária, porque Deus, falando connosco, preenche-nos com a sua sabedoria, a sua paz, a sua alegria, enfim, a sua santidade. E assim, supera-se a distância que há entre o transcendente e o imanente, Deus e o nosso mundo material. Quando rezamos, deixamos de lado tudo o que é secundário e procuramos, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça. O resto torna-se acréscimo, quando nos concentramos o único necessário, que é Deus.
Segundo a definição, dada por uma pessoa muito simples, cuja oração me parecia um êxtase diante de Deus, “a oração é estar ali só para Deus, uma vez que Deus está ali só para mim.” Cessam o barulho e as preocupações do mundo, ou, se eu as assumo, é para as entregar, através da oração, ao Coração de Deus. Assim transformo tudo em oração.
Não esqueçamos que a oração é graça e iniciativa de Deus. Por isso, digamos muitas vezes: “Ensinai-nos a orar” e gostemos de orar. Santa Teresinha, ainda pequenina, escondia-se atrás das cortinas do seu quarto e lá ficava “pensando em Deus”. Na verdade, ela já experimentava a verdadeira contemplação: quando já não se fala, simplesmente se escuta, prostrado diante de Deus, deixa-se que a misericórdia nos invada, assim como o orvalho invade a terra, fazendo brotar a semente. Este deve ser o ideal das nossas vidas.