Como um Santo fala de outro Santo

 

O Santo Padre Cruz, grande amigo do Sr. Padre Jacinto de Sousa Borba, da Congregação da Missão, era um grande amigo do Santo Padre Cruz. No dia 3 de Janeiro de 1945 partiu para o céu a receber o prémio dos seus inúmeros trabalhos. Num pequeno livrinho que narra as grandes virtudes do P. Sousa, como era conhecido em Lisboa, escreve assim o P. Cruz à laia de prefácio.

 

“Felizes os mortos que morrem no Senhor.”

Assim diz o Divi­no Espírito Santo.

 

O nosso carís­simo P. Sousa é do número desses felizes. No mundo considera-se feliz um homem que es­tando longe da sua pátria, ganha muitas riquezas e com elas volta à sua pátria, e com a sua família, que muito ama, goza dessas mesmas riquezas que granjeara com muito trabalho:

Com mais razão se deve considerar muito feliz o bom cristão que estando neste mundo, desterrado da sua Pátria que é o Céu, com a morte chega à sua pátria celestial onde com o Senhor e nosso amantíssimo Salvador Jesus Cristo, a sua Mãe Santíssima e todos os Anjos e Santos gozará por toda a eternidade das riquezas espirituais que adquiriu durante a vida terrena.

Desse número, é o nosso caríssimo P. Sousa que gran­jeou neste mundo muitas riquezas com uma santa vida cheia de actos de amor de Deus e do próximo. Creio piamente que logo no momento da sua morte ouviu as consoladoras pala­vras do nosso amantíssimo Salvador: Euge, serve bone...intra in gaudium... e no grande dia do Juízo Universal ouvirá com todos os justos: Vinde, benditos do meu Pai!

Quando fui aos Açores tive a felicidade de visitar a terra natal do meu tão bom amigo, com o qual estreitei mais os laços de verdadeira amizade quando soubemos que tínha­mos cantado a nossa primeira missa no mesmo dia, 25 de Junho de 1882, e tivemos a felicidade de celebrar as nossas bodas de prata, de ouro e de diamante ajudando-nos mutua mente; e por isso quando estou para celebrar a Santa Missa peço à alma de tão bom amigo que, assim como me ajudou cá na terra, também no céu peça ao nosso Divino Salvador graças para bem celebrar tão augusto Sacrifício.

Na igreja paroquial da freguesia das Lages (Açores), subi ao púlpito e falei aos muitíssimos fiéis que enchiam completamente o vasto templo, e felicitei-os e dei-lhes os parabéns pela grande honra de terem um patrício tão ilustre pela sua santidade.

Lembrei que S. Vicente de Paulo quando ia à sua terra natal ia beijar a pia baptismal onde tinha recebido o santo Baptismo com o qual se lhe abriram as portas do céu, o Eterno Pai o adoptou como filho e o Espírito Santo fez da sua alma um templo que deve ser santo, renovando-se assim os mistérios que se realizaram quando Nosso Senhor Jesus Cristo foi baptizado no Rio Jordão por S. João Baptista, pois diz o Evangelho que o Céu se abriu, o Eterno Pai fez ouvir a sua voz declarando Nosso Senhor seu Unigénito Filho e o Espírito Santo se manifestou na figura de uma pomba.

O nosso caríssimo Padre Sousa faria o mesmo como mem­bro tão distinto da Congregação do grande S. Vicente de Paulo, e como ele não estava eu ia em seu lugar beijar a santa pia baptismal, e fui com muita admiração e edificação dos fiéis...

 

Lisboa, 27 de Setembro de 1945.

 

P. e CRUZ, SJ


{corpo}