
Dois Santos Sacerdotes
Santo Cura d’Ars e o Santo Padre Cruz
O Padre Mateo Crawley disse a alguém, que o repetiu, que “de todos os sacerdotes que encontrou nas suas pregações à roda do mundo, o Padre Cruz é aquele que mais lhe lembrou o Cura d’Ars”. Haverá, realmente, entre o Cura d’Ars e o Padre Cruz semelhanças? Há semelhanças e há diferenças. A lâmpada pode ser diferente; mas a luz com que ambos iluminaram o mundo é a mesma.
Ambos com uma grande alma num fraco corpo; doentes a trabalhar como se vendessem saúde. Ambos amando os pecadores, como Cristo Redentor; ambos compadecendo-se dos pobres e atendendo os suplicantes, como Jesus de Nazaré.
Ambos unidos a Deus em oração contínua e inclinados para os homens em permanente caridade. Ambos com uma única preocupação: a salvação das almas, e um único desejo: a glória de Deus.
Ambos chorando sobre o altar e esquecendo o tempo nas suas acções de graças. Ambos tranquilizando as consciências, aliviando mágoas, passando como o Divino Mestre a fazer o bem.
Ambos pregadores sem rasgos de eloquência, mas convencendo com o poder duma vida que dá testemunho de Cristo e conquistando com a suprema força do amor.
Ambos tão simples que o extraordinário parece neles natural, e a virtude viril, simplicidade de infância.
O Padre Cruz foi o protótipo do Padre, homem de Deus. Padre, o Padre Cruz foi-o, em toda a acepção da palavra; pai das almas, sentindo cuidado, não por uma meia dúzia de filhos, mas por milhares deles! Amando a todos e afligindo-se, mais ainda do que eles próprios, que não vêem o mal e a desgraça onde o Padre os vê. Padre, o Padre Cruz foi-o sempre, na santidade do seu carácter sacerdotal.
Tempos houve em que a batina dum Padre, ao passar pelas ruas, despertava a antipatia duma negra ave agoirenta. Lia-se a hostilidade nos olhos e ouviam-se palavras desrespeitosas que feriam. Ao Padre Cruz pouco lhe importava que a sua batina lhe custasse humilhações; dava por elas graças ao Senhor.
Toda a gente se foi habituando a vê-lo no seu traje de sacerdote. E como, durante anos, foi o único a sair assim à rua, a batina ajudava a reconhecê-lo; ao avistá-lo, o povo acorria para ele, sem receio de se chegar ao homem vestido de negro, cuja presença não era de mau agouro mas de bênção!
E o povo, no seu ódio ao Padre, fomentado por calúnias, exclamava: – Se todos os Padres fossem como o Padre Cruz!
O que é que assim o distinguia e lhe merecia a estima e a veneração, mesmo dos anticlericais?
Qual era a superioridade desse Sacerdote, que não buscava honras e tinha tamanho renome?
A vida do Padre Cruz pode resumir-se em duas palavras: «a verdade na caridade». Por isso foi tão grande aos olhos dos homens.
Se, como homem, tinha qualidades humanas verdadeiras, como Padre, a verdade da sua vida tinha o esplendor da graça, que é a Santidade de Deus.
Testemunho importante sobre o sacerdócio do Padre Cruz é o do Padre Mateo Crawley-Boevey:
«Conheci muito intimamente o Padre Cruz que muitas vezes foi meu conselheiro e também, pelo seu maravilhoso exemplo, o inspirador das minhas pregações ao Clero. E ele, na sua bondade, deu-me toda a sua confiança.
As nossas relações de amizade estreitaram-se por ocasião de numerosos Retiros sacerdotais que eu preguei em Portugal. Nessas ocasiões, convidava o Padre Cruz para ouvir as Confissões dos Exercitantes, ministério em que ele se excedia. Mas devo acrescentar que, convidando-o, eu queria também colocar sob os olhos dos Sacerdotes o modelo perfeito que podiam imitar. Com efeito, a simples presença do Padre Cruz era mais eficaz que as biografias edificantes que poderiam ler, porque sem esforço via-se nele o Padre santo.
E então, aproveitando a sua presença, pedia-lhe sempre para fazer publicamente para os Sacerdotes a Via Sacra, na qual o bom Padre Cruz transbordava de emoção e comovia as almas sacerdotais.
Na impossibilidade de entrar em numerosos pormenores, resumo as minhas impressões sobre o Venerando Padre Cruz afirmando categoricamente o seguinte: Depois de ter percorrido o mundo pregando sobretudo ao Clero, posso afirmar sem hesitação que entre muitos excelentes Padres jamais encontrei um Padre mais conforme ao Adorável Modelo, um Alter Christus tão perfeito, como o querido Padre Cruz. Na minha opinião, ele era uma reprodução viva do Cura d’Ars”.
O Padre Francisco Rodrigues da Cruz
Conta-nos a sua vocação ao sacerdócio
Um santo é um semeador de ideal que espalha o bem e prepara colheitas para o céu. Do nascimento do Santo Padre Cruz em Alcochete nos orgulhamos todos nós e por isso o celebramos, no dia 29 de Julho junto do seu Jazigo, no Cemitério de Benfica.
O P. Cruz nasceu em Alcochete, a Vila foi o berço daquele que seria outro S. João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, que faleceu uma semana depois de nascer o Santo Padre Cruz.
Esta coincidência parece dizer-nos que Deus não queria apagar uma luz sem nos deixar outra acesa.
Santo foi o nome que lhe puseram já aos 35 anos de idade e a fama de santidade foi sempre em aumento, até ao seu falecimento. Bispos, sacerdotes, pessoas de todas as categorias sociais o tinham por santo e como tal o veneravam.
“Sem dúvida o APOSTOLADO foi a característica de toda a sua acção sacerdotal. No exercício desta virtude ele subiu tão alto que, na nossa terra e nos últimos tempos, nunca ninguém com ele emparelhou, nem ultrapassou ou substituiu. Não se diga, porém, que lhe escasseavam outras virtudes.
(J. C. Freitas Barros, Páginas da Vida do Padre Dr. Cruz)