
O CONFESSOR
“Confissão e Comunhão, eis a fonte de todo o bem” – costumava dizer o Padre Cruz, apropriando-se das palavras de Santo Afonso.
Serão, realmente, estes os melhores meios para a salvação e santificação das almas?
O grande drama da humanidade é a luta entre o bem e o mal, entre a morte e a vida.
O Padre Cruz tinha horror ao pecado. O modo como acentuava o seu desejo e propósito de não ofender a Deus, mostra-o bem: “Nunca, nunca, nunca mais pecar, nem sequer venialmente, com deliberação”.
Na verdade, como se compreende que vivamos sem temor do pecado? Como podemos resignar-nos a perder a nossa dignidade de filhos de Deus? E a arriscar a nossa salvação eterna, tornando-nos membros mortos do corpo vivo de Cristo? E a trocar livremente a luz pelas trevas?
O amor das almas expostas à suprema desventura e o amor de Cris to ofendido pelos nossos pecados, levava-o a uma luta sem tréguas contra o mal. Luta entre a vida e a morte, a graça e o pecado. Morte eterna para o pecador que não se quer arrepender; vida imortal para o pecador que res suscita, saindo do seu pecado, como Cristo do sepulcro, vitorioso da morte.
Recordam as senhoras Caldas Machado que as lágrimas lhe corriam, por vezes, “dum choro aflitivo e dolorido” pelos pecadores. Mas o Padre Cruz não se quedava inerte a chorar os “mortos”; procurava afastar as pedras do sepulcro, como os Anjos na manhã da Ressurreição.
“O grande meio de ressuscitar da morte do pecado para a vida da graça ou de uma vida tíbia e imperfeita para uma vida mais santa, é a Confissão” – dizia.
“Confissão, amai a Confissão!” – não se cansava de repetir. “Os pe cados mortais são a morte da alma: a Confissão restitui à alma a vida da graça; os pecados são doenças da alma: a Confissão cura essas doenças; os pecados são dívidas da alma: a Confissão perdoa essas dívidas; os pecados são nódoas da alma: a Confissão limpa essas nódoas”. Quando ia a uma freguesia pregar, o seu maior desejo era que não ficasse ninguém por confessar. Aos doentes, que não podiam ir à igreja, procurava-os em casa, sem exceptuar mesmo aqueles que recusavam os serviços espirituais do Pároco ou de qualquer outro Sacerdote. Seria o que Deus quisesse! E lá ia... como o Bom Pastor, à busca das ovelhas tresmalha das. E Deus ia com ele.
Numa aldeia do Norte, encontrava-se em estado gravíssimo, já desesperado, um homem que há mais de meio século não recebia os sacramentos. Todos os Sacerdotes que dele se aproximavam eram mandados embora, acabando por desanimar e desistir. Contaram-lhe o caso; apesar das más informações, não hesitou em visitá-lo.
Entrou no quarto do doente. Um olhar... um sorriso... “Que extraordinário o seu poder de atracção! Já o doente pede que o deixem sozinho com o Padre Cruz, pois quer que ele o oiça de confissão!
E não contente em dar-lhe uma boa esmola à despedida, horas depois mandou uma rosca de pão de ló ao dono da casa onde o bom Sacerdo te estava hospedado e 30$00 para ajuda do frete do automóvel que o levara a sua casa – tudo isto com “muitos agradecimentos”!
Dois dias depois falecia, num sofrimento atroz, pois tinha um cancro na língua, já com perfuração para o pescoço”.
A confissão até lhe servia... para recompensar serviços e manifestar amizade!
Tendo recorrido a um médico para receber uma injecção, no final disse-lhe: “Não sei como lhe hei-de pagar, mas posso ouvi-lo de confissão...” E confessou o médico!...
Lamentava muito as pessoas piedosas das terras onde não havia sa cerdotes. Quando, nas cartas que recebia, se queixavam desta grande falta, rezava: “Peço perdão dos meus pecados e desejo confessar-me, e peço perdão para aqueles que não podem ou não desejam confessar-se” .
Aconselhava a confissão semanal, dizendo com graça:
– É preciso dar corda ao relógio todos os oito dias.
Asseverava que a confissão não só faz bem à alma mas também ao corpo; de si mesmo afirmava que, antes da confissão, se sentia fisicamente abatido, e depois de receber a absolvição, incomparavelmente mais forte.
Contava, rindo, que um homem muito obeso, que se tinha confessado com ele, ao levantar-se, exclamara:
– Sinto-me tão leve que sou capaz de voar!...
Achou muita graça a esse dito e muitas vezes o repetia, para mostrar como a confissão alivia e torna feliz.
Não era só a gente humilde que gostava de se confessar com ele. Um médico, recordando as suas confissões, aprecia-as assim:
“O Padre Cruz conhecia bem as almas. Na confissão julgava as faltas no seu justo valor, sem as analisar em excesso nem em defeito. Era um bom psicólogo, dando a orientação precisa, sem cair em divagações inúteis ou vagas, mas precisamente aplicadas ao caso exposto”.
Nunca se cansava de confessar.
– Então o senhor Doutor, depois de estar aqui cinco dias sempre a pregar, a confessar e a rezar, ainda vai para a Carvoeira? Não sei como não entisica!
Tinha razão o sacristão da Ramalheira! Mas apesar de correr o risco de adoecer, lá foi para a Carvoeira mais três dias, pregar, rezar e meter-se no confessionário...
Bem quis o Pároco ir mostrar-lhe “algumas coisas notáveis da freguesia”. Não aceitou.
– Ah, caríssimo colega, tomara eu estar todo o dia a confessar!
No seu apostolado, tudo começava ou acabava com a confissão.
O modo como, por vezes, conseguia confessar algumas pessoas, era verdadeiramente extraordinário.
Numa quinta, onde se encontrava hospedado, havia um cocheiro que não se queria confessar. Depois de ter confessado toda a família, quando saiu da capela chamou o criado à sacristia e disse-lhe sem mais preâmbulos: – Agora, vamo-nos confessar!
E ele, sem retorquir, ajoelhou.
Doutra vez, tendo ido pregar a uma freguesia, todos se confessaram menos um homem. Sabendo que este andava a trabalhar num campo, ali perto, ao ir-se embora passou por lá e disse-lhe:
- Ó meu irmão, vossemecê foge a Nosso Senhor?
- Não tenho tempo de ir à igreja.
- Pois, se quiser, confesso-o aqui mesmo.
Assim foi. Confessou-o ali mesmo, à beira da estrada.
Até no comboio chegou a confessar homens! E não só pobres homens da 3. a classe; também confessava na l. a classe!
Conta um sacerdote que, viajando num comboio com o Padre Cruz, se retirou discretamente para o corredor da carruagem para lhe permitir confessar mais à vontade um oficial do Exército.
Por vezes, essas confissões no comboio chegavam a tomar aspectos de “factos extraordinários”, como este que relata outro sacerdote:
“Fui esperar o Padre Cruz à estação da Covilhã, e notei o seu ar muito satisfeito. Perguntando-lhe a razão, disse-me:
Omnia cooperantur in bonum iis qui secundum propositum vocati sunt sancti. E explicou:
“Vinha no comboio, e em Belver apareceu uma senhora a saudar-me, mas dizendo-se muito triste por não ter com ela um sobrinho que andava muito longe de Deus, e confiava que eu o trouxesse a melhor caminho. Entretanto, apareceu, sem se saber como, o dito sobrinho, que a senhora me apresentou. Grande conversa, e subitamente o comboio pôs-se em marcha, ficando o rapaz preso no compartimento. Passados minutos, o rapaz estava a confessar-se no comboio; e feita a confissão, rezámos ambos o terço e, em Castelo Branco, o rapaz saiu”, seguindo o Padre Cruz a sua viagem.
Qualquer lugar lhe servia de confessionário. “No período da pri meira Grande Guerra, em que os comboios não tinham horários certos e fervilhava a anarquia entre o pessoal constantemente em greve, o Padre Cruz esteve parado horas seguidas numa estação da linha do Oeste. Um dos companheiros de viagem começou a arengar contra os Padres. Sem se mostrar molestado, o Padre Cruz falou-lhe com a mansidão habitual. O que disseram, não sei – declara a testemunha deste caso. Sei apenas que, passado algum tempo, apeou-se e atrás dele o seu contendor, a quem con duziu para um barranco junto à linha, e ali mesmo, sentado numa pedra, ouviu-o de confissão”.
Deitava a mão a todos: até aos jardineiros das casas que frequentava. Ninguém lhe resistia. Numa Tutoria encontrava-se um rapaz cuja rebeldia, falta de fé e resistência à graça pareciam invencíveis.
– Se V. Rev. a lhe falasse! – aventurou a Directora.
– Está bem, eu falo-lhe. Mande chamar o rapaz.
“Passados instantes, entra na sala um rapaz dos seus 18 a 20 anos, alto, forte, uma bela figura; cabeça levantada, expressão altiva, tudo nele deixava adivinhar um orgulho indomável, que parecia a nada ceder.
Deixámo-los sós, o jovem altivo e pecador e o velhinho humilde e santo. Falaram cerca de 20 minutos, passados os quais vejo-o sair; um rapaz quase irreconhecível, na transformação que nele se operara: um ar inteira mente mudado, cabeça baixa, olhos rasos de lágrimas, mas com uma expressão de felicidade consoladora.
Entrei e fui encontrar o Dr. Cruz com o seu habitual sorriso bené volo e cheio de paz. Nenhum comentário lhe escapou sobre o caso. Já no automóvel, que nos reconduzia a casa, volta-se para mim e exclama: “Que boa confissãozinha a deste rapaz! Vós tudo podeis, meu Senhor e meu Deus! Vamos rezar uma dezena do terço em acção de graças, Sim?”
Homens que afirmavam que nunca se confessariam, que a confissão era invenção dos Padres, procuravam-no de noite, como Nicodemos, para se confessar.
Assim aconteceu com um que havia 50 anos não cumpria a desobri ga. E não foi só esse! Nessa mesma terra e nesse mesmo dia, catorze homens o procuraram em casa da família onde se encontrava hospedado. Desses homens, o que mais recentemente se tinha confessado, fizera-o ha via dez anos!
Deu-se até um caso curioso. O Padre chegou tarde e vinha muito cansado. Quiseram que fosse primeiro jantar antes de atender os homens que o esperavam.
– Sim – condescendeu – mas só se dessem também de jantar a esses homens.
“Não nos incomodou nada o pedido por se dar o caso de ser feriado no dia seguinte, e estarmos prevenidos com carne e tudo o mais. Fomos, pois, jantar, com a intenção de, enquanto o senhor Padre Cruz confessava os homens, fazermos a refeição para eles. Mas – oh maravilha! – quando íamos para fazer novo jantar, ainda havia tanta comida que chegou perfeitamente para todos!”
“Tenho piedade desta gente que me seguiu sem comer”, disse o Di vino Mestre. E três pães e cinco peixes chegaram para uma multidão de 5.000 pessoas, e ainda se encheram alguns cestos com as sobras...
Pela sua correspondência podemos também fazer-nos ideia dos fru tos das suas jornadas apostólicas, apesar do laconismo das notícias.
Numa carta, com data de 15 de Maio de 1935, já então com 75 anos de idade, lemos que às 5 horas da manhã já o povo acorria para a igreja e às 2 horas da tarde ele ainda estava a confessar! Outras vezes, eram 2 horas da noite e ainda tinha pecadores a seus pés!
Era um trabalho esgotante. Mas não se queixava! Pelo contrário, declarava-se “muito consolado, porque, graças a Deus, muitas almas apro veitaram”.
Em algumas cartas refere números: em tal terra, houve 1.500 comunhões; noutra, 2.000.
Ficava tão contente quando havia, assim, uma generosa correspondência à graça! Em comunicativa alegria dava a notícia – louvando ao Se nhor! – sem lhe ocorrer sequer que fora o seu nome prestigioso que atraíra os fiéis, e o seu trabalho e virtude que tinham preparado a colheita.
Muitas pessoas, que só a ele se queriam confessar, esperavam, anos seguidos, um encontro providencial.
Um dia, estava a pregar na igreja do Campo Grande, em Lisboa. Ou melhor, o pregador que tinha subido ao púlpito tinha sido outro, um Padre franciscano; ele, apenas no fim da cerimónia religiosa, fez uma daquelas suas práticas, entrecortadas de orações.
Um homem novo, modestamente vestido, abeirou-se dum dos assistentes e perguntou-lhe:
– Sabe como se chama aquele Padre velhote que está a pregar? – É o Senhor Padre Cruz.
Num movimento de surpresa e alegria o homem volveu: – Que me diz?!
Repetiram-lhe que era o Padre Cruz:
- Fui eu que aqui o acompanhei e agora vou com ele novamente.
Resposta do pobre homem:
– Pois já daqui não saio sem me confessar. Lá isso é que não saio! Ora eu que andava há tanto tempo atrás dele para me confessar, e vejo-o agora aqui... Isso é que tem de ser... Não, não saio sem me confessar!
E ali se confessou, quase abafado no meio da multidão que cercava o santo velhinho para lhe beijar a mão. Que remédio senão atendê-lo! – “Tinha de o confessar, fosse como fosse e desse por onde desse!”
Tal era o desejo de se confessarem a ele, que até havia quem preten desse confessar-se... de longe!
“...A maior das pecadoras está a vossos pés, penitenciando-se de todos os seus pecados...” (Seguia-se a triste história da sua vida). “A minha alma contrita, beijando este papel que vai para as vossas mãos abençoadas por Deus, pede-vos a absolvição de todas as suas faltas”.
É claro que a resposta foi que não podia absolvê-la à distância, por carta, e aconselhando-a a que procurasse um sacerdote a quem se pudesse confessar vocalmente.
Outras pobres almas, nem atendiam a que outros estavam a ouvi-las.
Uma poveira, vendedeira de peixe, abeirou-se da janela do automó vel em que o venerando Sacerdote se encontrava, e tais coisas lhe dizia que foi preciso adverti-la de que não eram permitidas confissões públicas...”.
Mas não se julgue que ele exercia esta extraordinária influência sobrenatural apenas sobre pobres e ignorantes; exercia-a igualmente sobre homens cultos e socialmente considerados.
No quarto dum doente encontrava-se um parente deste. Sem rodeios, o Padre Cruz perguntou-lhe:
– Há quantos anos não se confessa?
- Há 40!
- Vamos a isso!
E pegando-lhe docemente num braço levou-o para uma sala. Sem objecções, sem resistência, o senhor deixou-se levar, ajoelhou e confessou-se.
Quantas vezes isto se repetiu!
- Ajoelhe-se!
E a vontade e o orgulho abatiam, como se os tocasse a mão de Deus. Mas nem sempre agia com esta repentina decisão. Também sabia esperar a hora de Deus, e chegava a esperá-la durante anos!
Era recebido em certa casa com tanta amizade, que nem avisava quando ia almoçar. Se estavam à mesa e ouviam o seu toque de campainha (que já era conhecido), exclamavam num alvoroço de alegria: – É o senhor Padre Cruz! e faziam-lhe logo lugar. Ele entrava sorridente, pedia desculpa, não queria que ninguém se incomodasse, e aceitava com simplicidade a refeição que lhe ofereciam.
Pois nesta casa, onde foi tantas vezes hóspede e onde o estimavam e honravam tanto que o escolheram para Padrinho duma filha, esperou anos, antes de falar em confissão ao dono da casa, afastado dos Sacramentos.
Um dia – porquê naquele dia?!, parece que pressentia a hora de Deus – disse-lhe sem explicações: – Vamos lá a confessar!
E pronto.
Como explicar este poder sobre as almas? Só a graça explica estas conversões. O Padre Cruz servia de instrumento a Deus, porque a sua confiança era tão grande como a sua humildade.
Um homem – por mais santo que seja – não pode produzir a graça; mas pode transmiti-la.
O seu modo simples de agir mostra bem que não era com a sua habilidade mas só com a graça de Deus que contava; e Deus compraz-Se em realizar grandes coisas por meio daqueles que crêem e esperam n'Ele – tão grandes coisas como aquelas que o Filho de Deus realizou pelo seu próprio poder, possuindo a graça por natureza e numa plenitude infinita.
O Padre Cruz sabia que “Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva”; e sabia que é a Confissão o meio normal de restituir à alma a graça, como é a Comunhão o meio por excelência de aumentar a graça e estreitar a amizade com Deus.
Por estes dois sacramentos chegam ao homem os infinitos merecimentos de Cristo; por eles entra o homem em união sobrenatural e divina com o seu Criador.
Sente-se o homem fraco e miserável? Ou triste e desamparado?
“O grande remédio para os nossos males e aflições são os Sacramentos da Confissão e Comunhão – lemos numa carta sua. Sou um velho de 88 anos e doente, não posso escrever longas cartas, mas conheço por experiência os meios que recomendo...”.
Não se cansava de o afirmar: “Todo o meu bem se deve à frequência dos Sacramentos. Há perto de 70 anos que tenho o hábito da confissão semanal. E a grande base”.
Sim, é a grande base da santificação. Porque a Confissão não é apenas um sacramento do perdão dos pecados; é o sacramento que, purificando, aumenta a beleza, e fortalecendo, liberta.
Quem é santo, pode sê-lo ainda mais; e o Padre Cruz não se considerava santo: ajoelhava-se, com a contrição dum pecador, aos pés de qualquer sacerdote.
Sem faltarem ao sigilo da Confissão, alguns sacerdotes a quem o servo de Deus se confessou, nos acasos das suas missões por essas terras de Portugal, recordam comovidamente a sua humildade, contrição e pureza de consciência.
“Uma das mais profundas impressões de toda a minha vida foi a que senti ao ver este santo ajoelhar-se aos meus pés para se confessar na sacristia da igreja de Guilheiro”. E declara ainda o mesmo sacerdote: “Muito me impressionando a sua pureza e delicadeza de consciência e emocionante comoção”.
E ao confessar-se, o Padre Cruz chorava!
O pecador não é apenas o homem perdido nas trevas; todo o ho mem, na caminhada de cada dia, projecta sombra no seu rasto. Por isso, os santos têm que se confessar, embora para nós, pecadores, as suas confissões sejam Virtudes.
Só Cristo pode dizer: “Quem me acusará de pecado?”
“Meu bom Jesus — escrevia o Padre Cruz nas notas dos seus Exercícios Espirituais — em nada Vos quero ofender com deliberação; quero ser Vosso amigo, amar-Vos sempre”.
Tudo é uma questão de amor. “Quem peca é um ingrato”, dizia o Padre Cruz. Sim, o pecado é sempre ingratidão: má paga ao supremo dom de Deus: o seu amor.
Os santos não atendem à leveza da culpa; só olham à gravidade da falta de amor.
Desde aquela sua confissão geral feita aos 20 anos, “o pródigo nun ca mais saiu da casa paterna”, dizia o santo sacerdote. Mas quem pode dizer que conservou sempre o seu coração “puro como uma Hóstia sobre o altar”? E o Padre Cruz lavava com lágrimas a poeira que caía sobre a sua alma.
Sendo a Confissão, como era, o seu tema favorito, tratou-o por todos os meios: na Imprensa e até na Rádio.
Vale a pena transcrever a sua palestra pronunciada aos microfones da Emissora Nacional, em 1944, porque nela encontramos o modelo perfeito do estilo oratório do Padre Cruz: singelo, prático e impregnado de um espírito de fé que impressionava e convertia:
“Foi-me apresentado – disse – um homem que nunca tinha recebido o Santo Sacramento da Confissão, nem queria recebê-lo. Sentei-o ao meu lado e fiz-lhe estas perguntas:
1 . a – Se estivesse gravemente doente e lhe aparecesse um bom médi co que lhe dissesse: curo-o da sua enfermidade, fica com perfeita saúde e não lhe peço estipêndio algum nem pela consulta nem pelos remédios – não se aproveitava da ciência desse médico? Respondeu: – É claro que me aproveitava, pois ninguém gosta de estar doente.
2. a – Outra pergunta que fiz: – Se tivesse um fato de grande preço e lhe caíssem umas nódoas, ficando muito sujo, e uma pessoa hábil lhe dissesse: eu tiro-lhe essas nódoas, e o fato fica como novo – não se aproveitava da habilidade desse homem? Respondeu: – Claro que me aproveitava, pois ninguém gosta de andar sujo e quando nos cai alguma nódoa gostamos de a limpar.
3 . a – Outra pergunta: – Se tivesse muitas dívidas e não tivesse com que pudesse pagá-las e uma pessoa generosa e rica lhe dissesse: diga as dívidas que tem, que eu pago-as todas – não se aproveitava da generosidade desse rico? Respondeu: – É claro que me aproveitava, pois ninguém gosta de ter dívidas e, quando as tem, gosta de as pagar e anda muito inquieto e triste enquanto não paga.
4 . a – Outra pergunta: – Se tivesse um espinho que lhe doesse muito e pessoa caritativa lho tirasse e ficasse sem dor, não apreciaria essa caridade? – Certamente – respondeu – porque não queremos ter dor que nos incomode.
5. a – Outra pergunta: – Se lhe desse uma cautela com a qual fosse receber 100 contos, não pegaria nela com ansiedade? – Sim, com muita alegria iria receber essa quantia.
Agora aplique à nossa alma estas considerações. Em nós não há só o corpo, mas também a alma. Como diz São João Crisóstomo, nada se pode comparar com a nossa alma, nem todo o mundo: por ela derramou Nosso Senhor Jesus Cristo o seu preciosíssimo Sangue. Os nossos pecados são doenças da alma: a soberba, a avareza, a luxúria, a ira, etc., são doenças da alma, mais graves do que as do corpo, pois sendo mortais levam à desgraça eterna do inferno. O modo de curar essas doenças é uma boa confissão. Os nossos pecados são nódoas da alma. Nosso Senhor Jesus Cristo, falando dos pecados, por três vezes se refere ao maldito vício da impureza – coinquinat hominem. A absolvição sacramental limpa essas nódoas, pois quando a recebemos, imaginamos estar ajoelhados perante Nosso Senhor Jesus Cristo Crucificado e que do seu Divino Coração aberto correm san gue e água que purificam a nossa alma. São João Evangelista diz “felizes os que lavam a sua alma no Sangue do Cordeiro”. Os nossos pecados são dívidas que contraímos para com Deus. Nosso Senhor Jesus Cristo, no mesmo dia da sua Ressurreição, deu aos seus Apóstolos e aos seus Sacerdo tes o poder de perdoar pecados, isto é, de apagar as nossas dívidas espiri tuais. Os nossos pecados são espinhos da alma, dor e remorso de consciên cia. A confissão bem feita dá paz e alegria santa. A absolvição sacramental, purificando a alma, habilita-a a receber, na Sagrada Comunhão, o verdadeiro Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vale infinitamente mais que todas as riquezas do mundo.
O homem convenceu-se com estas considerações reais e recebeu logo o Sacramento da Confissão e no dia seguinte a Comunhão, porque ele sabia bem a doutrina.