Redescobrir o Sacramento da Confissão

Que o homem precisa de purificação e de perdão, é bem evidente na realidade dos nossos dias. Precisamente por isso o Papa João Paulo II, de saudosa memória, na sua Carta Apostólica “Novo Millennio Ineunte”, formulou votos para que, entre as prioridades da missão da Igreja para o terceiro milénio, haja "uma renovada coragem pastoral para propor de maneira persuasiva e eficaz a prática do sacramento da Reconciliação".

Todas as pessoas sentem necessidade de se libertarem de tudo aquilo que constitui um peso na consciência, ou seja, alguma coisa que não esteve de acordo com a verdade que trazem gravada no seu íntimo.

Conhecendo inteiramente a psicologia humana e as suas carências, Jesus Cristo, na mesma tarde da Ressurreição, instituiu um Sacramento libertador: o da Reconciliação ou Penitência. Com efeito, aparecendo aos apóstolos no Cenáculo, soprou sobre eles, “gesto sempre associado à comunicação do Espírito” e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo! Àqueles quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,22ss).

A Confissão é o caminho que temos que percorrer para recuperar a graça santificante perdida pelo pecado mortal. Não faria sentido que o Mestre entregasse com tanta solenidade à Igreja “ali presente nos discípulos” um poder sem conteúdo, que para nada serviria, na prática, se houvesse outros modos comuns de alcançar o perdão das faltas graves.

A Igreja sabe que só Deus pode perdoar os pecados (cf. Mc 2,7). Por isso faz um discernimento atento, quase com receio, sobre quais os poderes que o Senhor lhe transmitiu ou não. Depois de um estudo profundo, a Igreja definiu que o meio ordinário para obter o perdão dos pecados graves cometidos depois do Baptismo e ainda não devidamente confessados é a confissão íntegra e contrita de todos os pecados graves cometidos. Por isso, a Igreja interpretou sempre estas palavras, em João 20,22ss e em Mateus 16,19 e 18,17-18, como as institucionais deste Sacramento.

Renovar o sacramento no Espírito quer dizer viver a Confissão não como um rito, um costume ou uma obrigação que se deve cumprir, mas como um encontro pessoal com o Ressuscitado que nos permite, como a Tomás, tocar as suas chagas, sentir em nós a força purificadora do seu Sangue e desfrutar “da alegria de estarmos salvos”.

A renovação do sacramento não se refere só ao modo de o receber, mas também ao modo de o administrar. Muitos entendem este Sacramento como um processo jurídico do qual se sai absolvido, ou não absolvido. Neste processo o ministro reveste a função de juiz. Esta visão se for acentuada unilateralmente, pode ter consequências negativas. Faz-se difícil reconhecer no confessor a Jesus. Na parábola do filho pródigo o pai não se comporta como um juiz, mas precisamente como pai; antes ainda do filho ter terminado de fazer a sua confissão, já o abraça e organiza uma festa.

Jesus não começa a perguntar em tom inquisidor à adúltera, a Zaqueu e a todos os pecadores que encontra “o número e a espécie” dos pecados: “Quantas vezes” Com quem” Onde”“. Preocupa-se, antes de tudo, de que a pessoa experimente a misericórdia, a ternura e também a alegria de Deus ao acolher o pecador. Sabe que após esta experiência será o próprio pecador quem sentirá a necessidade de uma confissão cada vez mais completa das suas culpas. O essencial é que tenha um início de verdadeiro arrependimento e a vontade de mudar e reparar o mal feito.

Com esta riqueza Jesus Cristo quis associar à recepção deste Sacramento, além do perdão dos pecados, outras graças: a graça sacramental que nos robustece para as lutas de cada dia; uma crescente delicadeza de consciência e brandura no trato com Deus; a humildade; e até a oportunidade de um conselho amigo.

Redescobrir esta prática sacramental é uma prioridade. Que se seja feito todo o esforço para superar a crise do “sentido do pecado”, que se instalou na mentalidade humana. Infelizmente a realidade concreta em que vivemos sofreu o impacto forte da secularização e da descristianização.

Se o desafio é grande, maior é a graça de Deus! Redescobrir o sacramento da Confissão é perceber a manifestação mais plena da bondade de Deus para connosco. É um reconduzir a nossa vida pessoal e social para mais perto de Deus. É experimentar o perdão: dos nossos pecados para com Deus e das nossas faltas para com os irmãos.

Assim como a culpa, apesar de todos os nossos vínculos com a comunidade humana, é algo totalmente pessoal, assim também a nossa cura, o perdão deve ser completamente pessoal. Deus não nos trata como partes de um colectivo ele conhece cada indivíduo pelo nome, chama-o pessoalmente e salva-o.

Será que a Confissão é uma prática que acarreta mais pesos sobre os ombros dos cristãos? É precisamente o contrário: Sem dúvida, a confissão da própria culpa pode parecer muitas vezes pesada para a pessoa, porque humilha o seu orgulho e confronta-a com a sua miséria. Mas é exactamente disto que necessitamos; quando nos fechamos no nosso delírio de inculpabilidade, neste momento fechamo-nos também aos outros, ao nosso próximo. Assim, a Confissão pode tornar-se uma experiência de libertação, na qual o peso do passado nos abandona e nós podemos sentir-nos rejuvenescidos por mérito da graça de Deus, que nos dá um coração renovado.

Deixemo-nos reconciliar com Deus! Aproximemo-nos de Jesus com confiança, porque Ele está à nossa espera para nos livrar das nossas “chagas”, “ “Ele tomou em si os nossos pecados” (cf. 1Pd 2,24-25) para nos acolher com o Seu abraço, para nos conceder o Seu perdão.

Hugo Dórea

 

 

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