
Recordações do Servo de Deus
Padre Francisco Rodrigues da Cruz, S.J.
Pediu-me a Ex.ma. Senhora Dona Maria do Carmo Albuquerque, filha do meu grande amigo de infância Rui Albuquerque, Ilustre Coronel das nossas Forças Armadas e que, por acaso, também é minha afilhada de baptismo, – que lhe transmitisse algumas recordações minhas sobre o "Senhor Padre Cruz" como sempre lhe chamei, atendendo ao facto daquele Servo de Deus se instalar na casa dos meus Avós, no chamado palacete dos Pestanas quando se deslocava ao Porto.
Correspondendo ao seu pedido, quero relatar algumas dessas recordações que sempre conservei na minha memória e no meu coração dado que, como neto mais velho convivi com ele várias vezes e durante um certo tempo.
Para não alongar muito a exposição que vai seguir-se, vou sintetizá-la ao essencial, procurando dividi-la em vários pontos ou partes para tornar mais simples a sua leitura e compreensão.
1. Coimbra: Creio que o meu Avô materno, dr. Sebastião dos Santos Pereira de Vasconcelos conheceu o Senhor Padre Cruz em Coimbra por serem contemporâneos nos estudos que ambos ali faziam, o meu Avô na Faculdade de direito e o Senhor Padre Cruz na Faculdade de Teologia.
Daí a amizade entre os dois que explicava o facto de o Senhor Padre Cruz se hospedar, sempre que vinha ao Porto, em sua casa, onde viviam também a minha Avó, Dona Maria Joaquina Pestana de Vasconcelos e sua irmã solteira Dona Maria José Pestana.
Quanto a Coimbra, o meu Avô contava até uma história curiosa passada entre o Senhor Padre Cruz e o dr. Afonso Costa. Este último, como é sabido e depois da implantação da República em 1910, sendo ministro da justiça (anteriormente - da Justiça e dos Cultos), arvorou-se em juiz e andou por Portugal fora a julgar sumariamente padres, frades e freiras (numa espécie de reencarnação do tristemente célebre Augusto de Aguiar, o chamado "mata-frades").
Fartou-se de mandar padres e frades para a cadeia, pelo simples facto de o serem, mas houve pelo menos dois casos em que o temível Afonso Costa saiu derrotado dos seus pseudo-julgamentos. Um dos casos passou-se com um cónego, cujo nome não recordo já, mas que sábia e inteligentemente lá ia rebatendo as acusações que o furibundo ministro lhe imputava. E tal foi a postura do cónego, que o Afonso Costa, hesitante na decisão a tomar, a certa altura lhe retorquiu: "O Senhor dá uma no cravo e outra na ferradura...". Resposta do cónego: "É que V.Ex.a. não está quieto com a pata...".
Com o Senhor Padre Cruz foi diferente: nem sequer chegou a haver interrogatório formal, porque quando anunciaram ao ministro que chegara a vez do Padre dr. Francisco Rodrigues da Cruz, aquele perguntou-lhe se era doutor por Roma ou por Coimbra e quando o nosso Servo de Deus lhe disse que era formado em Coimbra, Afonso Costa respondeu-lhe sem mais comentários: "Então vá-se embora".
2. Via-Sacra: Quando o Senhor Padre Cruz chegava a nossa casa no Porto, tinha por hábito celebrar a missa de manhã na capela adjacente ao palacete e à tarde assistia ao terço e à Bênção do Santíssimo, celebrados pelo padre capelão, isto junto do altar.
Finda a cerimónia, o Senhor Padre Cruz que ocupava sempre um lugar ao lado da epístola, (in cornu epistolae), naquela altura à esquerda do altar, sem se paramentar, começava a rezar a Via-Sacra com meditações que por vezes improvisava.
Escusado será dizer que nessas alturas, a capela continuava cheia de pessoas que tinham assistido à Bênção e então, no fim da Via-Sacra, o Servo de Deus aproveitava para fazer uma breve alocução, durante a qual me chamava para junto dele (eu deveria ter uns sete anos) e então por vezes, batendo-me com alguma força no peito sobre o coração com a sua mão direita, exclamava, virado para a assistência: "Aqui, aqui é que está o Espírito Santo."
Descia, depois, à sala de jantar onde alguns membros da família, o Avô e o Padre capelão, já com fome, haviam começado a jantar. No entanto, quer a minha Avó, como a minha Tia esperavam sempre que o Senhor Padre Cruz terminasse a sua função na capela e desciam com ele até à sala de jantar, na qual todos se levantavam quando chegava o "Santo" hóspede.
Aproveito também este lugar para dizer que o jantar do Senhor Padre Cruz era curioso e obedecia rigorosamente, segundo ele próprio dizia, às prescrições médicas.
Assim, comia sempre umas rodelas de tomate cru na sopa e rematava o jantar frugal com um cálice de vinho do porto, ingerindo durante o mesmo nozes raladas por causa dos dentes.
Uma vez eu perguntei-lhe porque era tão rigoroso e escrupuloso naquela dieta e ele respondeu-me que tínhamos a obrigação de comer coisas que não nos fizessem mal, apontando como uma dessas coisas terríveis misturar laranja com leite.
3. A imagem de São Francisco Xavier: O Senhor Padre Cruz dormia sempre num quarto grande do andar que estava ao nível da capela, quarto esse em que mais tarde haveria de falecer a minha Avó Maria Joaquina.
Contavam as empregadas que ele se levantava sempre a meio da noite para ir para a capela rezar e ali passava longos momentos.
Ora, para passar para a referida capela, tinha de atravessar uma espécie de corredor envidraçado, a que chamávamos o "passadiço", no qual se encontrava uma linda imagem em terracota de São Francisco Xavier de tamanho superior ao natural.
Aconteceu que várias vezes, empregadas da casa que estavam sempre atentas toda a noite com medo que o Senhor Padre Cruz caísse naquelas deambulações nocturnas, o viram parar junto da estátua de São Francisco e falar com ele.
4. O episódio da caneta: Este episódio ocorreu ao pequeno-almoço. Havia um senhor no Porto, de seu nome, se não erro, Henrique de Barros Gomes, que era muito amigo do Senhor Padre Cruz. Aliás, era ele quem o transportava normalmente no seu automóvel para todos aqueles lugares e sítios que ele gostava de visitar e em que os seus fiéis o aguardavam como se fosse o Messias.
Aconteceu que nessa manhã, com o Senhor Padre Cruz a tomar o pequeno-almoço na sala de jantar, apareceu Barros Gomes para o vir buscar.
Nesse enterim, o Senhor Padre Cruz assinava uns autógrafos que várias pessoas lhe solicitavam, utilizando uma velha caneta de tinta permanente, creio que da marca "Pellikan". Até recordo que a cor dessa caneta era o castanho e branco. A certa altura, Barros Gomes exibe ao nosso Servo de Deus uma "Parker" em ouro maciço e pretende convencê-lo a trocar aquela pela caneta que ele estava usando.
Todavia, o Senhor Padre Cruz resistiu tenazmente à tentação, por mais que o seu amigo lhe dissesse que a caneta que lhe pretendia oferecer era de ouro e a melhor do mundo. Disse-lhe, pura e simplesmente que gostava muito da sua caneta, melhor, do aparo desta e que não a trocava por nenhuma outra.
E, Barros Gomes lá teve, coitado, de enfiar a sua caneta de ouro no bolso, com o ar mais triste deste mundo...
Este episódio, faz-me me lembrar o que aconteceu com o Papa João XXIII na altura, pouco antes da sua morte, e em que o dr. Piero Mazzoni, médico do pontífice, se apercebeu que um dos pouquíssimos objectos de valor que pertenciam ao Papa era uma caneta estilográfica. "Fique com esta caneta – sussurrou o Papa ao seu médico no leito de morte – é tudo quanto possuo, para lhe retribuir os seus cuidados e a sua dedicação. Está quase nova, porque eu usei-a muito raramente". (Vaticanerie, Nino Lo Bello, pags. 37, Ancora, 2000)
5. A festa de Cristo-Rei: Na Capela da casa dos meus Avós, vulgo, como se disse, a Capela dos Pestanas, a primeira Capela no mundo erigida em honra de Cristo-Rei, havia sempre uma grande festa na altura em que se celebrava liturgicamente a solenidade de Cristo-Rei e era costume presidir às celebrações o Vigário da Vara do Porto, Padre Adriano Martins, acolitado pelo padre capelão Agostinho Ribeiro Gonçalves e pelo padre Alberto Ribeiro, capelão da Igreja do Carmo e confessor do bispo do Porto D. Agostinho de Jesus e Sousa.
Uma vez sucedeu que no dia da festa estava presente o Senhor Padre Cruz e na cerimónia da Bênção, o Vigário da Vara determinou que era ele quem deveria presidir a essa celebração. O Senhor Padre Cruz fez tudo, com a sua proverbial modéstia e quando viu tudo perdido até chegou a alegar que não podia com a pesada "capa de asperges", toda recamada de ouro a qual ele não conseguiria suportar sobre os seus ombros.
Mas não conseguiu: paramentaram-no, o Vigário da Vara vestiu urna simples dalmática de diácono e a cerimónia realizou-se assim.
Conto isto, em primeiro lugar para mostrar a humildade e a simplicidade do Servo de Deus e depois para narrar um episódio que estou ainda a ver como se fosse um filme que indelevelmente se tivesse gravado na minha memória.
Foi assim: quando o Senhor Padre Cruz, finda a cerimónia se retirava do altar no meio dos dois acólitos que lhe seguravam na "capa de asperges", foi surpreendido por uma senhora desconhecida que avançou para ele, agarrou-lhe na sua frágil cabeça e deu-lhe um beijo em cada face, sem que os ministros acolitantes nada pudessem fazer e desaparecendo depois no meio da confusão que se estabeleceu. Chegados à sacristia, o Vigário da Vara, estava absolutamente indignado com aquele desacato que violava, para além do mais, todas as normas litúrgicas da época e mesmo actuais.
Contudo, o Senhor Padre Cruz, com aquele seu sorriso único e inimitável, sem mostrar qualquer agastamento, limitou-se a pronunciar aquela frase que ainda hoje está pintada no tecto do Palácio da Vila de Sintra: "Foi por bem...".
6. A capa e os quadradinhos: Chegou uma vez ao Porto o nosso Servo de Deus com a sua capa preta toda ela estraçalhada em baixo na orla: parecia quase um rendilhado.
Eu, ao ver aquilo e tanto mais que ia a acompanhá-lo na escadaria que dava acesso à sala de jantar, perguntei-lhe o que havia acontecido e logo ele me disse:
"Calcula que me deram esta capa nova em folha hoje em Lisboa, mas em Coimbra, quando o comboio parou, fui verdadeiramente cercado por um bando sobretudo de senhoras que armadas de tesouras me retalharam esta bela capa". Ri-me muito até porque o Senhor Padre Cruz logo me explicou que aquilo devia ser para fazer relíquias e acrescentou: "Tu já viste fazerem relíquias da capa de um homem que ainda está vivo?"
Depois disto e ainda a descer a escadaria, o que se fazia muito devagar por causa da sua grande dificuldade em se mover, rapei do bolso de um livrinho muito pequeno e desdobrável, tipo concertina, o qual a medida em que se ia desdobrando e abrindo, ia mencionando em abstracto varias virtudes, obras e prodígios, perguntando-se quem seria o autor de todas aquelas coisas: no final, vinha a surpresa — "O Padre Cruz".
Este riu-se também muito, achou que tudo aquilo era imerecido mas acrescentou: "Cá está uma brincadeira inofensiva e que nem sequer me deu cabo da minha capa".
7. A Primeira Comunhão: A minha Primeira Comunhão teve uma importância fundamental na minha vida.
Desde o traje, um grande colarinho engomado, o lenço de seda bordado, o missal em madrepérola, os presentes que todos me deram, foi a festa mais bonita de toda a minha vida.
E não se admirem disto, porque foi mesmo assim. Alias, "mutatis mutandis", e sem a pretensão de fazer comparações, vou procurar justificar isto com uma história autêntica atribuída a Napoleão Bonaparte.
Numa altura em que este se achava no auge da sua glória – Imperador dos Franceses, Rei de Itália, Protector da Confederação do Reno e dominando quase toda a Europa, reunido num banquete com os seus príncipes, marechais e generais, formulou-lhes esta pergunta: "Sabem qual foi o dia mais feliz da minha vida?"
E as respostas começaram a suceder-se: "Austerlitz", "A coroação", "O nascimento do Rei de Roma", etc.
"Nada disso", respondeu Napoleão – "O dia mais feliz da minha vida foi o dia da minha Primeira Comunhão."
Isto dito por um homem que era católico pouco praticante e que teve tantos conflitos com o Papa, foi simplesmente espantoso e notável.
E de tal maneira foi o espanto que Almeida Garrett, ainda muito novo e quando se encontrava nos Açores, à sombra de um seu tio bispo, aproveitou uma cerimónia de uma Primeira Comunhão colectiva, para, sem ter recebido ainda quaisquer ordens, – pregar um sermão em que contou a historia de Napoleão, a qual caiu em cheio em toda aquela gente.
Posto isto, voltemos à minha Primeira Comunhão: nada teve a ver com a de Napoleão, mas foi sem dúvida muito mais marcante, por isso que quem me ministrou pela vez primeira o Corpo de Cristo, foi, nem mais nem menos, do que o Senhor Padre Cruz.
Disse a missa na nossa capela, fez uma homilia muito bonita e depois deixou-se filmar comigo no chamado "passadiço" por causa da luz, possuindo eu ainda agora um filme de oito milímetros captado pelo meu Tio Avô dr. Francisco de Vasconcelos, um percursor no cinema de amador e um fotógrafo extraordinário com uma temática sobretudo incidente na cidade do Porto.
Neste filme de curta duração, o Senhor Padre Cruz abençoou-me e eu benzi-me, julgando eu que será, porventura, um dos únicos, se não o único filme, em que aparece o nosso Servo de Deus.
Nesse famoso dia da minha Primeira Comunhão, o Senhor Padre Cruz ofereceu-me um lindo quadro que ainda hoje religiosamente conservo e em que escreveu uma dedicatória, a tinta verde, a qual com o tempo se tem vindo a esfumar, mas cujo teor ainda se pode ler, desejando-me as maiores felicidades e em que insiste que a Primeira Comunhão que naquele dia me deu, venha a ser seguida por muitas outras até – "A última, por viático, para o Céu".
8. A Senhora Infanta: A Senhora Infanta Dona Filipa de Bragança, irmã do Senhor Dom Duarte Nuno, fez uma primeira visita a Portugal, tendo percorrido várias zonas do País e no Porto, onde se hospedou na casa dos Condes de Campo Belo e dali anunciou uma visita a casa dos meus Avós, isto em homenagem à figura do meu Bisavô José Joaquim Pestana da Silva, chefe legitimista da Região Norte e grande amigo do Senhor Dom Miguel II.
A casa engalanou-se e fizeram-se obras para a receber; abriram-se os salões e convidaram-se os monárquicos do Norte para uma grande recepção.
Teve lugar uma missa na capela anexa ao palacete, celebrada pelo capelão D. Gaspar Pizarro de Portocarrero e à qual a Senhora Infanta assistiu em lugar destacado.
Depois disso, seguiu-se um lauto pequeno-almoço servido na sala de jantar em que brilhavam as pratas e as louças de Sèvres e da China.
Foi com grande espanto que eu vi o meu Avô com uma cigarreira de ouro e tartaruga, oferecer uns cigarros à neta de Dom Miguel I, o que naquela altura cheirava quase a um escândalo porque as senhoras não fumavam.
A Senhora Dona Filipa subiu depois aos salões (lindíssimos, com lustres franceses, damascos, tapetes de Aubusson e porcelanas da China) e foi precisamente ao cimo da monumental escadaria e quando se preparava para entrar num dos salões em que era aguardada pela quase totalidade da comunidade miguelista do Norte, que apareceu o Senhor Padre Cruz para a cumprimentar, já muito velhinho e com a sua inseparável capa sobre a batina.
Avançou para a Infanta e tentou ajoelhar-se para lhe beijar a mão, mas ficou com os dois joelhos em terra diante dela. Esta fez o mesmo, de forma que ficaram ambos de joelhos um para o outro, numa pose que só foi pena não ter sido imortalizada por um cliché fotográfico oportuno.
Esta recepção foi, no entanto, descrita em livro pelo Conde de Alvéolos, livro esse intitulado – "Entre Castelos e Quinas".
9. O Barral: Existe perto da nossa quinta em Ponte da Barca uma terra chamada São João de Vila Chã que possui um lugar chamado Barral.
Ora, nesse lugar, em 1917, precisamente três dias antes da primeira Aparição de Fátima, Nossa Senhora teria aparecido a um pobre pastor de seu nome Severino, sentada e envergando um manto azul sobre um vestido branco e teria trocado algumas palavras com ele, que segundo recordo, teriam sido no sentido de gabar uns cachos de uvas de uma ramada existente no lugar da Aparição e depois dizer ao vidente que rezasse a "Estrela do Céu".
Esta oração era pouco conhecida, mas um homem natural daquelas bandas, o Cónego Professor Doutor Avelino de Jesus Costa, descobriu-a no breviário e divulgou-a em pagelas.
Também o meu Avô materno, o Avô Sebastião, deslocou-se ao Barral, visitou o lugar da Aparição e falou com o vidente, posto o que escreveu no jornal, "A Ordem", um artigo muito interessante a relatar o acontecimento.
Esta Aparição vem referida em vários livros, embora não tivesse tido a projecção dos acontecimentos de Fátima, dada, possivelmente, a sua proximidade cronológica.
Mesmo assim, o atrás mencionado cónego mandou construir no local uma formosa capelinha, com belos quartzos da região e mais tarde uma monumental igreja, tudo em honra de Nossa Senhora, invocada com o nome de Nossa Senhora da Paz. Eu próprio fui testemunha de uma visita ao local, com ordenação de um padre, do que haveria de ser mais tarde o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, nessa altura ainda, bispo auxiliar do Arcebispo de Braga.
Isto tudo para dizer que também o Senhor Padre Cruz (tal como haveria de acontecer com Fátima) se interessou por esta Aparição e tendo-se deslocado à nossa Casa das Ínsuas em Ponte da Barca, onde se deixou fotografar com a nossa família e o Senhor Martins do Barral, (um dos grandes crentes e divulgadores da Aparição), visitou o local e ficou muito impressionado com tudo que ali se passou.
10. A minha fotografia: Quando eu tinha para aí uns sete anos de idade, as minhas Tias-Avós Maria Isabel e Maria José de Vasconcelos que muito gostavam que eu seguisse a carreira eclesiástica, deram-me uns paramentos que mandaram confeccionar e que compreendiam uma casula, estola, manípulo e uma alva, que ainda conservo religiosamente.
O irmão delas, grande fotógrafo e amador de cinema, tirou-me várias fotografias e até um filme em oito milímetros, devidamente paramentado e uma dessas fotografias foi oferecida ao Senhor Padre Cruz.
Pois bem: ouvi mais tarde dizer, por inconfidência de uma das Senhoras Caldas em cuja casa o Senhor Padre Cruz se hospedava em Lisboa, que ele mantinha colocada essa fotografia minha paramentado na mesinha de cabeceira no seu quarto de cama no palacete do Largo do Caldas.
11. O baptizado da minha Prima Maria Luísa: Esta minha Prima é a filha mais velha da Tia Maria e do Tio Francisco, Irmão da minha Mãe.
Como era tradição na Família, quando ela nasceu, o baptizado teve lugar na Capela do Divino Coração, anexa ao palacete dos meus Avós, alias conhecida pela Capela de Cristo-Rei ou Capela dos Pestanas.
Quem presidiu à cerimónia, foi o Senhor Padre Cruz e se relembro a cena, foi porque nela aconteceram dois episódios curiosos.
O primeiro foi na interpelação inicial que nessa altura era feita em latim pelo celebrante. Na realidade, o Senhor Padre Cruz hesitou no nome da neófita e começou: "Maria, Maria". Até que alguém lhe segredou: "Luísa" e logo ele, depois de uma pequena pausa exclamou: "Maria Ludovica, vis baptizari?". Ao que os padrinhos então responderam — "Volo".
Depois e aí é que foi engraçado. No ritual daquele tempo, já tão recuado, havia uma altura em que o sacerdote "cuspia" no dedo polegar da mão direita e colocava um pouco dessa saliva nos ouvidos e no nariz da criança, ao mesmo tempo que pronunciava a palavra — "Ephta", a qual quer dizer — "Abre-te".
Ora, o Senhor Padre Cruz bem se esforçou por cuspir varias vezes no seu dedo, mas nada – não saía saliva nenhuma. A cerimónia ameaçava não continuar, até que o padre capelão, o Padre Agostinho Ribeiro Gonçalves que também assistia, molhou o dedo do Senhor Padre Cruz na água e tudo se resolveu.
12. O baptizado do Filomeno: Conto isto para revelar até que ponto ia a abnegação e o gosto de agradar do Senhor Padre Cruz numa idade já muito avançada e em que até já tinha grande dificuldade em locomover-se.
Pois foi convidado para baptizar um filho do seu amigo João Fernandes, realizando-se essa cerimónia em Miramar. O curioso foi que o Senhor Padre Cruz teve de esperar quase duas horas para que a cerimónia se iniciasse e da sua boca não se ouviu qualquer queixume, passando aquele tempo a rezar calmamente o breviário.
13. As Caldinhas: Tendo feito o exame de admissão ao liceu, inscrevi-me no liceu Rodrigues de Freitas no Porto, mais tarde D. Manuel II, (agora já não sei como se chama) e lá estava feliz da vida, cursando o primeiro ciclo.
Todavia, um belo dia, o Senhor Padre Cruz veio ao Porto e disse aos meus Avós maternos que eu deveria antes ser internado no Colégio Nun'Alvares em Santo Tirso.
E como tudo o que ele dizia era sagrado, lá fui eu de malas aviadas para aquele colégio, mas dei-me mal – não gostava do regime de internamento – e passados dois meses, salvo erro, voltei a regressar ao liceu, com grande empenho do Vigário da Vara do Porto e meu grande amigo, o Padre Adriano Martins, que me havia baptizado e alegria do respectivo reitor, o doutor Sousa Vieira que tudo arranjou e permitiu nesse sentido porque também, para além de meu mestre, era e sempre foi um grande amigo.
14. A bênção da água de Santo Inácio: Como é sabido, o Senhor Padre Cruz era Jesuíta e embora não permanecesse na comunidade daqueles padres, tinha o estatuto e todos os direitos e deveres deles.
Quando era novo, tinha gostado de ingressar na Companhia de Jesus, mas a saúde não lhe permitiu isso e assim mais tarde e mercê de uma autorização especialíssima e naquela altura única, do próprio Geral da Companhia, pode realizar esse seu velho sonho.
Ora, uma das faculdades dos padres da Companhia era benzerem a água através de um determinado ritual que transformava a água benzida em água de Santo lancis, a qual era utilizada para as curas das doenças e outros efeitos, tal como, v. g., a água de Lourdes.
E então o Senhor Padre Cruz mandava vir a água num garrafão, colocava ao pescoço uma pequena estola que trazia sempre consigo, branca de um lado e violácea do outro, introduzia na água uma medalha de prata de Santo Inácio que trazia sempre consigo ao peito e procedia depois à bênção segundo o ritual próprio, sendo que a água, depois de benzida era passada para recipientes mais pequenos os quais eram distribuídos pelas pessoas interessadas.
15. A doença da minha Mãe e a sua cura milagrosa por intercessão do Senhor Padre Cruz: A minha Mãe, numa altura anterior à descoberta da penicilina e portanto dos restantes antibióticos em geral, apanhou, creio que em Ponte da Barca, na nossa quinta, uma febre tifóide que se agravou muito já no Porto e ainda por cima como já estava com uma gravidez muito adiantada, o seu estado clínico era considerado desesperado.
Foi sacramentada e o seu médico, creio que o doutor Aloísio Coelho e o professor doutor Carlos Ramalhão, eram unânimes: não havia nada a fazer e o que aconteceria era perderem-se a mãe e o filho.
O Senhor Padre Cruz já não estava entre nós, mas alguém se lembrou de colocar sobre a cabeça da Mãe uma barretina preta que ele costumava sempre usar e que ficou esquecida em tempos na Casa do Campo, onde era guardada como uma preciosa relíquia.
Pois na noite em que lhe colocaram a barretina do Senhor Padre Cruz, a criança nasceu espontaneamente e ainda viva, tendo sido baptizada com o nome de Maria do Céu. A partir dai, a febre começou a baixar e a Mãe rapidamente se restabeleceu.
Contou, depois, que viu o Senhor Padre Cruz, em sonho ou em delírio e sentiu que se salvaria.
Tudo isto e certamente com mais pormenores foi objecto de um depoimento prestado por meu Pai, Oficial de Engenharia, Duarte José Martins da Costa Pereira, no processo de beatificação do Senhor Padre Cruz.
16. Referência ao Senhor Padre Baptista: O Vice-postulador da causa da beatificação do Senhor Padre Cruz foi precisamente o Padre Manuel Baptista, da Companhia de Jesus. Era muito meu amigo, já dos tempos da Congregação Mariana da Rua das Valas no Porto a que eu pertencia e, quando transitei de juiz de Bragança para auditor jurídico da Presidência do Conselho de Ministros, sendo para o efeito nomeado ajudante do Procurador-Geral da República, o Senhor Padre Baptista invariavelmente às terças-feiras, vinha jantar a minha casa, muito perto da sua residência na Rua da Lapa e, além disso, passava todos os anos, cerca de dez dias na nossa Casa de Torre de Pousada em Ponte da Barca, antes de seguir para os exercícios espirituais que sempre fazia em Braga ou em Soutelo.
Foi ele quem benzeu a Capela de Pousada no mesmo dia em que os meus Filhos, a Isabel Eugénia e o Hugo Manuel, ali receberam a Primeira Comunhão e nessa mesma capela presidiu à celebração dos setenta anos da minha saudosa Mãe.
Por isto mesmo, tínhamos grandes conversas sobre o andamento do processo de beatificação. Ele falava-me da propaganda que fazia quer com filmes, quer através do Boletim das Graças que muito trabalho lhe dava, das suas idas a Roma para falar com o postulador que era o Padre Molinari, etc.
Contudo, sempre vinha ao de cima a figura do Senhor Padre Cruz e algumas das efemérides da sua vida, como por exemplo aquela em que nas suas bodas de diamante sacerdotais, lhe ajudou à missa, como um simples sacristão, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa.
Aconteceu até, uma vez, um episódio interessante. Eu tinha um Tio, Irmão do meu Pai, de seu nome Hugo Manuel Martins da Costa Pereira que para além de ser um grande pintor e cenógrafo, chegando a director cenotécnico do Teatro de São Carlos, era um grande figurinista e desejava enveredar pela via do cinema.
Tinha tudo preparado para levar avante um interessantíssimo filme sobre a chegada de Fernão Mendes Pinto ao Japão, com um guião, feito por ele, intitulado – "Um fidalgo no Japão".
Teve, porém, uma outra ideia: realizar um filme de longa metragem sobre a vida do Senhor Padre Cruz.
E até já tinha um título para ele: "Passou fazendo o bem". (Aliás, uma frase do Novo Testamento imputada ao próprio Cristo).
Cheguei, nesse sentido e com esse objectivo, a dar um jantar em minha casa em Lisboa e no qual reuni: o Tio Hugo, o Artur Duarte (grande cineasta português), o Azinhal Abelho (escritor e possível consultor do filme), e o Senhor Padre Baptista, além da minha humilde pessoa.
Foi um jantar muito agradável, eu iria a dizer, verdadeiramente histórico, mas a iniciativa morreu logo ali: é que os promotores do filme pensavam que a Causa da Beatificação poderia financiar o filme, mas quando ouviram o Senhor Padre Baptista afirmar que a referida causa se debatia com graves dificuldades financeiras, gorou-se o projecto e nunca mais se falou nisso.
Lisboa, 23 de Novembro de 2005
Sebastião Duarte Pestana de Vasconcelos da Costa Pereira
Juiz Conselheiro Jubilado do Supremo Tribunal de Justiça