
Quem sois Vós, Jesus?
Muito se tem escrito sobre Jesus. Na verdade, Ele nunca deixou de ser tema para os mais variados tipos de literatura. Há os que O aceitam como Pessoa divina, o Filho de Deus que encarnou para nos conduzir de volta ao Pai. E há, também, ideias e concepções das mais contraditórias sobre Ele, sem conteúdo científico ou histórico, mas que buscam escandalizar, para se tornarem sucesso na comunicação social. São caricaturas de Jesus.
De qualquer forma, tudo isso demonstra a definitiva importância da Pessoa de Jesus, passados mais de dois mil anos depois da sua Encarnação. Persiste a mesma pergunta, que Ele fez aos Apóstolos, diante dos boatos que os seus contemporâneos disseminavam sobre a sua identidade e missão: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Esta pergunta dirige-se a cada um de nós, ainda hoje.
Para muitos, Jesus é uma procura, um eterno enigma, que quanto mais se busca, mais parece esconder-se, quase respondendo ao que o profeta Isaías dizia: “Tu és o Deus escondido, o Deus de Israel, o Salvador”. De facto, com os olhos e os sentidos humanos, não conseguimos abarcar o Cristo Jesus, pois a sua transcendência escapa-se e desconcerta-nos. Admiramo-nos dos milagres, da sublimidade da doutrina, do maravilhoso relato da Ressurreição, ficamos extasiados diante da Eucaristia, mas nada disto nos mostraria quem é Ele, se não fosse corroborado pela intuição da fé. Dizia Santo Agostinho: “O nosso coração está irrequieto até que descanse em Vós”, isto é, só depois de ter encontrado Jesus plenamente. Muitos não descobriram o sentido da vida, porque ainda não experimentaram este encontro com o Jesus de Nazaré dos Evangelhos.
Quem sois Vós, Jesus? Para responder a essa pergunta, é necessário deixarmo-nos interpelar por Ele: “Que procurais?”. Os primeiros discípulos ainda não sabiam claramente. Assim, quiseram certificar-se de quem Ele era, formulando uma pergunta tímida: “Mestre, onde moras?” Ao que Ele respondeu, não com uma explicação, mas com um convite: “Vinde e vede”. Somente a experiência do encontro pessoal nos assegura a verdadeira resposta.
Vamos destacar, brevemente, como reagiram a essa pergunta alguns personagens do Evangelho, começando pelo triste caso de Judas Iscariotes. Judas traiu Jesus porque não esperava que o Messias fosse Deus. Incapaz de aceitar o transcendente, ele procurava em Cristo, simplesmente, o sentido terreno: o homem cuja oratória arrastava multidões; seria o líder político-militar, capaz de deflagrar uma revolução para libertar Israel do jugo romano. Judas está entre aqueles que não conseguem reconhecer a divindade de Jesus. Entretanto, o Mestre anunciara, em diversas ocasiões, que esta não era a sua missão: “O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súbditos, certamente, teriam pelejado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo”.
Ao contrário de Judas, Maria Madalena viu, na figura daquele jovem da Galileia, o seu Divino Mestre, aquele que lhe podia até perdoar os pecados. Com o comovente gesto de lavar os pés de Jesus com as próprias lágrimas de arrependimento, enxugando-os com os seus cabelos, para depois os ungir, ela reconheceu que ali estava o Senhor e Salvador do mundo.
Havia, também, os medrosos, como Nicodemos. Era um homem sábio, mas temeroso e cheio de respeito humano. Tinha vergonha de ser visto como seguidor de Jesus. Por isso, foi aconselhar-se com Ele de noite. Convertendo-se, abraçou os seus ensinamentos, acompanhou-o publicamente nos momentos finais, durante o enterro e, certamente, participou da comunidade primitiva.
João Evangelista foi aquele que melhor conheceu Jesus, depois de Nossa Senhora e de São José, assim nos parece. Aceitou, com disposição generosa, o convite do Senhor: “foi e viu”, conhecendo quem Ele era e qual o conteúdo da sua missão. Começou a segui-lo, provavelmente, ainda muito jovem. Acompanhou-O durante a realização dos milagres, na pregação pública, nos ensinamentos aos Apóstolos, até ao doloroso momento da Paixão. Enquanto Pedro negou Jesus por três vezes, João esteve presente ao pé da cruz, sem penetrar o profundo sentido daquele mistério cruel.
Foi o único Apóstolo a testemunhar os últimos momentos do Senhor, sendo por Ele próprio encarregado de O substituir junto de sua Mãe, Maria Santíssima. E João assim o fez, recebendo-a na sua casa. Depois da Ascensão, conviveu com Nossa Senhora, na casa de Éfeso. Lá deve ter recebido as suas confidências, amparando-a na velhice e confortando-a na hora da morte. O seu afecto filial é modelo do afecto que todos devemos nutrir por essa Mãe de todos nós... por ser Mãe de Jesus, nosso Irmão.
São João viveu aproximadamente até à idade de 90 anos, em Éfeso e depois exilado em Patmos, escrevendo o Evangelho teologicamente mais profundo, além de três cartas e o livro do Apocalipse. Abordou os mistérios de Jesus como nenhum outro Evangelista: a reflexão teológica sobre a Eucaristia e a união entre as duas naturezas, humana e divina, na Pessoa do Verbo encarnado.
Entretanto, ele só confirmou a sua fé em Jesus após a Ressurreição, conforme testemunha no Evangelho: “Então entrou também o discípulo que havia chegado primeiro ao sepulcro. Viu e creu. Em verdade, ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos”. E dali para a frente não teve mais dúvidas.
Quem sois Vós, Jesus? Na pluralidade de filosofias, religiões e ideologias do mundo actual, esta pergunta torna-se mais premente do que nunca. Da resposta que cada um der a ela, depende toda a orientação da própria vida. Nós, que caminhamos na fé, respondemos com São João: “Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para connosco. Deus é amor”.
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Ele (Jesus) é o centro da história e do mundo; é Aquele que nos conhece e nos ama, o companheiro e amigo da nossa vida, o homem da dor e da esperança; Ele é, enfim, Aquele que há-de vir, e que um dia será o nosso juiz, e também, como esperamos, a plenitude eterna da nossa vida e a nossa felicidade. Nunca mais acabaria de falar d'Ele. Cristo é a luz, a verdade, ou melhor, é "o caminho, a verdade e a vida"; é o pão e a fonte da água viva, para a nossa fome e para a nossa sede; é o pastor, o nosso guia, o nosso modelo, o nosso conforto, o nosso irmão. Como nós, e mais do que todos nós, Ele foi pequeno, realizou milagres, e inaugurou um novo reino, em que os pobres são bem-aventurados, em que a paz é o princípio da convivência, em que os puros de coração e os que choram são exaltados e consolados, em que os sedentos de justiça são saciados, em que os pecadores podem ser perdoados, em que os puros de coração e os que choram são exaltados e consolados, em que todos são irmãos. Jesus Cristo! Já ouvistes falar d'Ele, ou melhor, a maior parte de entre vós, já lhe pertenceis, já sois cristãos. Pois bem. A vós, cristãos, repito o seu nome, ao mesmo tempo que o anuncio a todos: Jesus Cristo é o princípio e o fim, o alfa e o ómega, o rei do novo mundo, o segredo da história, a chave dos nossos destinos, o mediador, a ponte entre a terra e o céu. Ele é, por antonomásia, o Filho do Homem, porque é o Filho de Deus, eterno e infinito, e simultaneamente o Filho de Maria, a bendita entre todas as mulheres, sua Mãe segundo a carne, e nossa mãe pela participação no Espírito do Corpo Místico. Jesus Cristo! Lembrai-vos: este é o nosso anúncio perene, este é o pregão que fazemos ressoar em toda a terra e por todos os séculos dos séculos. (Paulo VI, Homilias ).