Os caminhos da vida

O Salmo 1 é o Salmo Introdutório dos 150 que compõem o Saltério ou Livro dos Salmos. Na Bíblia tem como título “Os dois caminhos”, mas poderíamos intitular este primeiro Salmo “Os Caminhos da Vida”, ou seja, os caminhos que conduzem a Deus ou que nos afastam d’Ele.

O caminho que se pode apontar como ideal na vida é o da felicidade. O que nos move para todo o agir é a sua busca. Fomos feitos para a felicidade. Mas que felicidade é essa, em quem ela se coloca ou repousa? Isto é o que a Bíblia ensina, no decorrer dos 73 volumes de que se compõem a Antiga e a Nova Aliança.

Diz o salmista: “Feliz o homem”. Este homem é aquele que teme a Deus. Temer não é sentir medo. É reverenciar, ter devoção filial para com Deus, porque Ele nos trata como filhos, e quer que lhe correspondamos da mesma maneira. A pessoa que age assim é comparada a uma árvore plantada à beira do riacho, que praticamente coloca as suas raízes dentro de água: água de vida, água nutritiva, que faz a árvore ser frondosa e, ao mesmo tempo, fecunda. Eis aqui uma imagem de grande beleza poética e de profundo realismo.

Esta fonte donde emana a vida é a própria lei do Senhor. Nela o homem feliz encontra o seu prazer. O cumprimento da lei só pode conduzir à felicidade quando ultrapassa a obediência formal e atinge a comunhão de amor. Então, os mandamentos do Senhor afiguram-se preciosos. O próprio Jesus disse: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada”.

Assim, duas coisas são exigidas para que qualquer pessoa possa ser feliz: tornar-se árvore frondosa, isto é, sem os defeitos, mazelas ou pessimismos que definham o ânimo de viver. Além disso, ela tem que ser fecunda, isto é, produzir algo que seja a sua razão de existir e que, ao mesmo tempo, permaneça para a posteridade. Este é o primeiro caminho.

O homem que teme a Deus “não segue o conselho dos ímpios”. Ímpio é aquele que não tem piedade, não tem reverência para com Deus nem para com as coisas sagradas. Homem infeliz! Não tem conteúdo, nem mesmo um parâmetro, ou maneira coerente de viver. E segue vagando, ora para a direita, ora para a esquerda, ao sabor do vento das ideologias, manipulado por certos sectores da comunicação social, buscando na conformidade com a massa a sua própria identidade perdida. Completamente tonto, este é o homem “ventoinha”, que gira freneticamente, mas volta sempre ao ponto de partida.

“Os ímpios são como a palha que o vento dispersa...”. Poderíamos dizer, como folha seca. É muito triste ver um tronco seco. Deveria ser árvore, mas já não é mais. No lugar onde existiu a árvore, encontra-se um lenho esgalhado, sem serventia, a não ser para se lançar ao fogo. Assim é a vida do ímpio: sem sentido, como uma música que poderia ter sido bela, mas nunca foi tocada; ninguém a conheceu ou cantou.

Quem não presta culto a Deus, não busca relacionar-se com Ele, envereda, muitas vezes, pelo caminho da zombaria. Sem critérios éticos e morais, pelos quais pautar o próprio comportamento, dissemina a ironia destrutiva, que intenta esconder os valores mais profundos. Até certas práticas pseudo-religiosas são mais uma pantomima do que propriamente culto a Deus. Este é o segundo caminho.

O autor desse proémio do Saltério chama-os de libertinos. Palavra forte, que para nós é a mesma coisa que devasso, homem que não tem moral nem respeito pelas outras pessoas. Assim é o homem improdutivo, infecundo. Triste figura, que deforma em si mesmo a imagem divina. Ele, de facto, é como a palha que o vento leva.

O futuro do ímpio é o pior possível. O que ele vai apresentar de positivo sobre a sua trajectória na vida? O salmista profetiza a sua queda, no dia do Julgamento, e a sua exclusão do conselho dos justos. Infelizmente, quantos homens deste tipo têm feito parte da história humana, frequentemente, até, em posições de alta relevância! Somente Deus sabe se foram capazes de se converter, ainda que no último momento. Pois, mais grave do que os desmandos que incorporaram à sua memória neste mundo, é o risco da sua condenação final.

Finalmente, acrescento um terceiro tipo de pessoa e um terceiro caminho. Aqui, já não nos encontramos no âmbito do texto inspirado, mas julgo poder desdobrar o seu ensinamento, na descrição desta postura tão peculiar às nossas sociedades contemporâneas.

Trata-se do indiferentismo, talvez ainda pior do que o deboche. Os indiferentes simplesmente não se incomodam com coisa alguma. Fechados no seu egocentrismo extremado, pouco se importam com a infelicidade ou a miséria alheias. A indiferença manifesta, na realidade, um profundo pessimismo do indivíduo, em relação a si mesmo, aos outros e à capacidade do ser humano de entrar em comunhão com o seu semelhante. Parece um paradoxo, um absurdo, mas há pessoas que, assim, se deixam arrastar para o caminho da infelicidade, por vezes, sem mesmo saber.

Estes são árvores secas, que no Juízo Final, expostos ao conhecimento público, vão ter que responder pelos seus actos e omissões, principalmente se exerceram poder e influência sobre grande número de pessoas: Como representaste aqueles que te entregaram o seu voto? Empregaste os teus bens e recursos em favor dos mais carentes? Foste um pastor fiel do rebanho que o Senhor te confiou? Viveste para alimentar o teu próprio egoísmo, ou soubeste ser fraterno com os outros?

Ao contrário, aquelas pessoas piedosas, que seguem o caminho de Deus, estarão na assembleia dos justos, onde a riqueza de Deus aparecerá, evidenciando-se nas suas vidas, tão ricas para a humanidade. E todos gozarão da felicidade eterna, compartilhada com os irmãos.

Nenhum de nós se sustenta por si mesmo. Basta permitirmos que as nossas raízes se afastem da torrente, para secarmos. O pior é que isto acontece lentamente, sem muitas vezes nos darmos conta. Portanto, matemos a nossa sede na oração, nos Sacramentos e na leitura da Palavra divina.

 

 


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