
As grandes amizades
Deus concedeu-me a graça de ter grandes amizades, muitas pessoas amigas, de todas as classes sociais. Ficou-me sempre no pensamento a palavra da Escritura que diz que um bom amigo vale mais que um tesouro. Na minha vida foi assim. Às vezes, a amizade nascia espontânea numa conversa, numa confissão, e ficávamos amigos para o resto da vida. Outras vezes, nascia da bondade e carinho de certas pessoas e famílias que me ajudavam e cuidavam de mim, velavam pelas minhas viagens, etc. Como a família desta casa onde estou, agora já sem grandes forras, idoso e doente, sem poder muita coisa. Outras vezes, a amizade nascia durante um retiro, ou então ao longo duma pregação, ou ainda em casos semelhantes aos que te contei anteriormente. As pessoas ficavam gratas e amigas, sempre disponíveis, sempre prontas a ajudar-me, sempre generosas em dar as suas esmolas para eu distribuir pelos pobres, doentes, presos, famílias carenciadas. O amor de Deus ia fazendo esta corrente de graça, de amizade, este círculo de comunhão e de amor fraterno, que ainda hoje existe entre mim e muita gente. Mas, como já te disse, meu caro amigo, as minhas grandes amizades são com os Srs. Bispos que me trataram sempre muito bem, com carinho e muito amor e dedicação. Devo-lhes muito, pois acolhiam-me, alimentavam-me, hospedavam-me, davam-me carinho e alento, apoiavam-me, entusiasmavam-me, defendiam-me, chamavam-me para dar retiros, e eu sentia muito a sua estima e paternal dedicação e afecto. Não tenho razão de queixa de nenhum, começando pelos meus Patriarcas. O Senhor Dom Manuel tem tido comigo muito carinho, interesse e amor de verdadeiro pai. Lembras-te de eu te contar o que Sua Eminência fez no dia dos cinquenta anos da minha ordenação? Era um pai e eu sentia através dele o amor de Deus. E com os padres, os meus irmãos no sacerd6cio, estabeleci grandes amizades que ainda hoje duram. Alguns parece que me achavam austero e não gostavam muito de mim. Paciência. Deus os ajude e conforte.
Eu era e sou muito atraído pela santidade. Por isso estabeleci grandes amizades com pessoas muito boas e santas. E uma lista muito grande, enorme. Mas eu só te vou falar de algumas, para te não cansar demasiado. O Sr. Arcebispo de Évora, D. Manuel Mendes da Conceição Santos, era um santo. Rezava muito, fazia muita penitência. Quando nos encontrávamos falávamos de Deus, de coisas espirituais, da santidade. Chegámos a confessar-nos um ao outro. Eu tinha por ele muita admiração, respeito, amizade. Era o “Arcebispo Santo”, que Deus concedeu à Igreja em Portugal. Quanto lhe devo! Quanto lhe deve Portugal e quanto lhe deve o Alentejo, sobretudo a diocese de Évora! Pai e Pastor, Pregador e Profeta, homem simples e humilde, orante e penitente, homem com muito zelo, muito apostólico, com muita caridade. Eu penso que era um santo verdadeiro. Outro bispo santo com quem lidei muitas vezes foi com o D. João Oliveira Matos, auxiliar da Guarda, que fundou uma Obra notável, a Liga dos Servos de Jesus, que espero bem nunca acabe, pois nasceu com muito sacrifício, muita pobreza, muitas dificuldades. Mas o D. João era outro homem de Deus, outro Pastor que era Pai, Bom Pastor e Bom Samaritano. Tinha uma alma de fogo que nos incendiava a todos. Preguei alguns retiros em que ele estava presente e sempre me acolheu bem e foi muito atencioso e delicado comigo. O amor de Cristo impulsionava-o e ele deixava-se conduzir por esse amor. Que belas conversas, longas e frutuosas, tive com ele. Ainda hoje recordo o muito bem que me fizeram esses contactos com o Dom João. Visitei algumas das Casas da Liga, preguei retiros aos Servos e as meninas, etc. Era uma amizade que me enchia a alma e o coração. Queira Deus que sejam sempre fiéis ao carisma que o levou a fundar a Liga. Que essa grande Obra floresça e cresça muito. Creio que será para glória de Deus.
Penso que já te falei da Alexandrina de Balazar, uma terra perto da Póvoa de Varzim, pertencente à Arquidiocese de Braga. Estou convencido que era uma santa. Foi vítima dos maus desejos de um homem e para guardar intacta a sua pureza, a sua virgindade, saltou duma janela e ficou paralítica. Mártir da castidade, bem entendido, como Santa Maria Goretti. Mas o mais extraordinário era a sua união à Paixão de Cristo. Nas sextas-feiras, e não só, sentia as dores dos estigmas e vivia um tormento verdadeiro, unida a Jesus Crucificado. Era uma santa da Paixão e do Calvário. E como já te contei, passou anos em que só se alimentava da sagrada comunhão, não comia nem bebia mais nada. Jesus, seu Esposo e seu Amigo, seu contínuo confidente, alimentava-lhe a alma e o corpo com a Sagrada Eucaristia, com o Pão Vivo descido do Céu, que é Ele mesmo, o Verbo do Pai nascido da Virgem Maria. Já imaginaste bem o que é não comer nem beber anos seguidos, só ter como alimento a Eucaristia? E Alexandrina tinha grandes e belos colóquios com Jesus. Conservam-se alguns dos seus escritos. Eu tive a graça de poder ir visitá-la, conversar com ela, assistir a alguns dos seus êxtases, dar-lhe a Comunhão, confessá-la. Sentia-me tão bem naquele pequeno quarto da sua casa em Balazar!!! Quantas maravilhas da “odisseia do amor” ali se passaram, quanto sofrimento, quanta reparação, quantos pedidos de Deus à conversão, à mudança de vida, aos bons costumes!!! Balazar, com a Alexandrina, são contínuo apelo ao valor da castidade, da virgindade, do pudor, da luta para não pecar contra o sexto e nono mandamentos. Como o mundo precisa deste apelo, assim como do apelo a vivermos unidos à Paixão de Jesus, a sermos grãos de trigo que aceitam morrer para que outros tenham vida, apelo a uma intensa vida eucarística, intenso amor à Sagrada Eucaristia. Sempre me fez muito bem ir a Balazar e poder contactar com a Alexandrina. Vinha de lá com maiores desejos de santidade, com mais amor à Eucaristia, com mais gosto em fazer penitência e em sofrer unido a Jesus Cristo. Tenho pena de lá não poder voltar. Aceito o sacrifício. Uno-me a Jesus e à Alexandrina.
Queres saber outra das minhas grandes amizades? Foi com D. Sílvia Cardoso. Era uma mulher de fogo, uma apóstola a cem por cento, uma cristã contemplativa na vida, na acção. Conhecia-a bem, sobretudo por causa da Obra dos Retiros que ela começou na Amadora, a pedido do Sr. Cardeal Patriarca, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira, e depois estendeu mais além. Fui a Paços de Ferreira, sua terra natal, onde fez uma obra admirável para os pobres, os mais marginais, uma creche, um infantário, um centro de saúde, etc. Calcula tu que ela ia pelas feiras, lá do Norte, em Freamunde, no Cô e noutros locais, a pedir para as suas crianças. Às vezes tratavam-na mal, insultavam-na. Mas ela dizia logo: isso, esse insulto, foi para mim, agora dê-me uma oferta para as minhas crianças. E todos se rendiam e lá lhe davam. Nem sonhas o que esta Senhora era capaz de fazer. Calcula que um dia conseguiu convencer um grupo de prostitutas a ir fazer um retiro. Os homens ficaram furiosos e insultaram-na, mas as mulheres, muitas delas pelo menos, mudaram de vida, converteram-se, deixaram a prostituição. Não te parece uma coisa rara e extraordinária? O seu maior amor, depois de Cristo, eram os pobres. Tinha uma grande paixão por eles e não parava nas suas andanças por Portugal inteiro a pedir para os pobres, a fazer obras de assistência, a remediar situações, a ajudar famílias. A sua vida é um reboliço contínuo numa “odisseia de amor” que Deus ia conduzindo duma maneira admirável. Nem sonhas o que esta Senhora, com alma e coração de fogo, ia fazendo e ajudando outros a fazer. Tinha a arte de colocar os outros em oração, mesmo nos comboios, nas camionetas de carreira, etc. Rezava e fazia rezar, ensinava a rezar. Tive muitos encontros com ela e saí sempre mais enriquecido por dentro, mais cheio de Deus e do fogo divino. Sabes, meu amigo, nos colóquios mais íntimos e espirituais que várias vezes tive com ela, pude convencer-me da santidade de D. Sílvia. Não me admirava que um dia fosse elevada aos altares, como a Alexandrina.
Outra das minhas grandes amizades foi com o Padre Américo. Já ouviste falar dele? O "Pai Américo", o Pai dos pobres, sobretudo dos rapazes abandonados, os rapazes da rua. Era um santo, o Padre Américo! Quanto rapaz, através dele e das suas obras, encontrou alimento, roupa, casa, carinho, amor! Tinha uma verdadeira pedagogia para levar os rapazes e fazer das suas Obras uma autêntica família. Responsabilizava os mais velhos pelos mais novos, dava muita e boa formação. E, depois, andava por aí a pedir para os seus rapazes. Ouvi contar que uma vez, antes de começar um teatro, pediu licença para ir ao palco e falar aos espectadores. Falou com tal entusiasmo, tal fogo, tal emoção, tão grande humildade, expôs de tal modo a vida e as necessidades dos seus rapazes, que toda aquela gente abriu as carteiras e deu quase tudo o que lá tinha. Parece que houve senhoras que deram até alguma jóia que levavam para a festa. Era assim o Pai Américo: amava e ajudava a amar, fazia nascer a generosidade no coração de muitos. Os seus rapazes saíam das suas Obras uns homens, muitos deles com um oficio para poder ganhar a vida. Era um grande homem, o querido “Pai Américo”. E se tu conhecesses o Património dos Pobres que ele ia construindo e ajudando outros a construir, ficavas admirado com tanto bem realizado. Uma casa para cada família pobre. Foi uma belíssima campanha por esse Portugal além. Quantas famílias lhe devem uma casa, quantos pobres uma sopa, quantos rapazes um curso. Quantas vidas e quantos futuros mudaram com a acção carinhosa e caridosa do coração do "Pai Américo". Também ele pregava por Portugal inteiro, embrulhado na sua capa preta, sempre com um sorriso nos lábios. E é um bom escritor, o nosso Padre Américo. Que bem escreve! Hás-de ler algum dos seus escritos. Espero bem que muitos artigos saiam depois em livro. São um património nacional. O santo Pai Américo a um grande homem, um padre extraordinário. E uma "odisseia de amor".
Desculpa de eu te estar a maçar contando estas coisas, falando-te destas amizades, mas de verdade são pessoas que me fizeram bem, me ajudaram muito. Ou melhor, íamo-nos ajudando uns aos outros. Eles a mim e eu a eles. E a comunhão de amigos que faz milagres de graça, que é mistério de Corpo Místico. Outra das minhas amizades — será que ainda tens paciência para ouvir mais — foi uma senhora que nasceu e morreu em Viana do Castelo, Maria da Conceição Pinto da Roch a , irmã do P. Sebastião Pinto, agora meu irmão jesuíta, membro da Companhia de Jesus. O Sr. Patriar ca tinha-me falado dela. Depois, o P. Sebastião falou-me também. Além disso, umas senhoras de Lisboa, da Acção Católica, também se mostraram interessadas em que fosse a Viana do Castelo visitá -la. Um dia, em que estava pelo norte, lá fui. Fiquei encantado com o seu porte sereno, pobre e digno, com a profundidade da sua alma e da sua oração, com os seus projectos em fundar uma Obra de pessoas que quisessem continuar a humanidade de Jesus, oferecendo-se como vítimas. Percebi que nessa Obra fariam voto de vitima, o que me pareceu algo de extraordinário. Soube que ela já tinha enviado um Memorial ao Papa Pio XI, através do Patriarca das Índias, D. Teodósio Vieira de Castro, e que o Papa tinha man dado dizer que abençoava e aprovava. Saí daquele primeiro en contro com a alma cheia, com algo de divino a bailar-me no cora ç ão, com ânsias de Evangelho, de cruz e de morte a mim mesmo. Tais sentimentos, nascidos da conversa com Maria da Conceição Pinto da Rocha, só podiam vir de Deus. Apercebi-me que tinha em Portugal inteiro um grande grupo de amigas, ou melhor dizen do, de discípulas, que a tinham por Mãe e Fundadora. Vim deveras tocado pela graça e impressionado. O que vi, ouvi e vivi em Viana, na pequena casa de Maria da Conceição, era obra de Deus, era outra extraordinária “odisseia de amor”. Como Deus foi bom em colocar-me no caminho gente tão santa. Sim, porque fiquei com a nítida impressão de que Maria da Conceição era uma santa. Soube mais tarde que também Sílvia Cardoso a visitou algumas vezes e que Maria da Conceição foi alguma vez a Balazar estar com a Alexandrina. Mistérios de Deus que une pessoas tão diversas no mesmo e santo ideal, ou seja, querer ser Como Jesus, imitá-Lo, ser testemunho d'Ele no mundo. Alguma vez, de regresso a Lisboa, falei ao P. Sebastião da sua irmã e entusiasmei muito a que a Obra da fundação fosse por diante. Parece que não foi, que há “algo” a impedir. Mas se é Obra de Deus, ela nascerá um dia, quer os homens queiram quer não. O amor vence sempre. Já triunfou na Cruz. E um grupo de almas, de pessoas que vivem o voto de vítima, são uma riqueza para a Igreja, são um dom para a humanidade. Há forças que impedem estas graças, estas fundações, estes dons para a humanidade.
Não posso deixar de te falar noutra das minhas grandes amizades, pois era muita a estima que tinha pela D. Luiza Andaluz, Fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima. Tivemos ocasião de nos encontrar muitas vezes, aqui em Lisboa, em Fátima, e até em Roma, na viagem que lá fiz no Ano Santo. Senhora fidalga, Viscondessa de Andaluz, mas que soube assumir uma vida de pobreza e de humildade invulgares. É uma apóstola que ainda anda por aí, fazendo tanto bem, com audácia e serviço. São, parecem-me, meu amigo, as palavras que melhor resumem a vida e a obra da Madre Andaluz. Às vezes, quando a encontro, até lhe costumo chamar a “abelha mestra”, pois tem conseguido que a Congregação fundada por ela cresça tanto, com tantas obras e instituições, com tantas Irmãs, em tão pouco tempo, que me admiro desta obra notável. Com ela tem tido grandes almas e ilustres Senhoras, que a têm ajudado muito na missão de fundar esta Obra. Sei que o Sr. Cardeal Patriarca, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, tem tido pela Obra, pela Congregação acabada de fundar um particular carinho. Ele próprio me falou desse assunto várias vezes. E o Sr. D. Manuel da Conceição Santos tem tido pelos inícios da Congregação uma particular solicitude. Tiveram há pouco, creio que em 1946, o seu primeiro Capitulo Geral. Começaram com certas dificuldades mas agora estão singrando com uma determinação e acção da graça muito grandes.