A amizade

 

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

 

Vivemos numa época em que já não se leva em conta nem mesmo os maiores valores humanos, tais como a amizade. Existem inimizades entre pessoas, entre grupos humanos e nações e, até, entre continentes. Isto impele-nos a abordar este sentimento, cuja grandeza é apresentada – viva e, ao mesmo tempo, palpitante – na Sagrada Escritura.

Os exemplos que encontramos na Bíblia começam pela amizade com Deus. O livro do Génesis mostra-nos a primeira geração humana, representada por Adão e Eva, como amiga de Deus: Deus passeava com os homens, ao sabor da brisa vespertina (cf. Gn 3,8). Essa amizade corrompeu-se pela falta de lealdade dos nossos primeiros pais. Rompe-se a amizade.

A partir daí, começa a história da restauração do ser humano, segundo o primitivo e eterno plano divino. Vemos aparecerem figuras de grande valor, como Abraão, nosso pai na fé, chamado por São Tiago de “amigo de Deus”. De facto, ele passou por grandes provas, conservando sempre a mesma dignidade e a mesma lealdade a Deus.

Muitos séculos depois, Moisés é apresentado como aquele que foi o mais íntimo de Deus, no âmbito de amizade e de apreço. Também foram alvo desta amizade especial outros patriarcas, como Jacob e Isaac e, posteriormente, os profetas. Com estes, Deus compartilhava os seus “segredos”, para serem transmitidos ao povo.

Ainda no Antigo Testamento, encontramos um belo exemplo de amizade humana, entre David e Jónatas. Este torna-se amigo de David, protegendo-o contra o seu próprio pai, Saul, que hostilizava David e tramava matá-lo, devido à simpatia que o povo lhe dedicava desde a vitória sobre Golias (cf. 1 Sm 17-20). Esta amizade salvou a vida de David.

A maior prova da amizade autêntica subsiste e enfrenta as situações mais difíceis. Encontramos um exemplo nos amigos de Job, que lhe foram fiéis até na desgraça, permanecendo firmes ao seu lado, mesmo quando a esposa praticamente o abandonou. Nos longos diálogos que o texto nos apresenta, os amigos levam Job a uma revisão de vida, através de colocações sublimes, valorizando tudo o que ele havia feito. A única ressalva que se pode fazer à beleza do texto é a equivocada explicação de “castigo divino” para as tribulações, sofridas pelo personagem Job, consequência de alguma culpa “não-identificada”, embora Job fosse um homem íntegro, que podia dialogar com Deus sem ter que se acusar de traições. Isto é característico do Antigo Testamento, cuja perplexidade diante de um justo sofredor Jesus iria transformar, provando, a partir da própria Paixão, que o inocente pode estar sujeito ao sofrimento em favor dos outros: por solidariedade. O texto acrescenta múltiplas manifestações de amizade para quem sofre... sem saber a causa.

Quando a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade entra em nossa história, através da Encarnação, começamos a descobrir os grandes amigos que Jesus Cristo vai atraindo, ao longo de sua vida pública. Os mais próximos foram aqueles, chamados a permanecer sempre junto d'Ele, os 12 Apóstolos. Dentre eles, Jesus agraciou alguns com uma amizade especial: Pedro, Tiago e João. Isto não impedia que Ele também fosse amigo dos demais, mesmo porque ninguém é digno da plena amizade com Deus, que a concede gratuitamente.

Jesus também era amigo de Lázaro e das suas irmãs Marta e Maria. A sua ligação com elas era tão grande que aquela casa de Betânia tornou-se para Ele praticamente um lar, juntamente com a casa de Pedro, em Cafarnaum, pois Jesus não tinha onde reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20). A casa de Betânia não ficava longe de Jerusalém, e Jesus deve tê-la visitado quando de suas diversas viagens a esta cidade, pelo menos as que conhecemos, por ocasião da morte de Lázaro e na última semana de Jesus antes da Paixão.

A seguir, encontramos a conversão de São Paulo. A amizade deste Apóstolo com Jesus tem outra característica – é uma amizade intelectual, espiritual, “teológica” mesmo, em que ele chega a dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Paulo tinha os seus colaboradores e amigos: Tito, Timóteo, Barnabé e, especialmente, Lucas, o grande evangelista e autor dos Actos dos Apóstolos, companheiro de Paulo nos momentos mais importantes de sua vida e inspiração para o seu erudito Evangelho.

Em torno desta amizade com Jesus, os discípulos descobriram a autêntica comunhão fraterna e a abertura para o amor preferencial e evangélico pelos pobres e abandonados, doentes e pecadores.

Outros amigos dilectos de Cristo são os milhões de santos e santas, em especial os mártires, que levaram a doação pelo grande Amigo até à máxima radicalidade, preferindo tudo, menos perder a Sua amizade. Até crianças como Tarcísio e Pancrácio, jovens adolescentes como Cecília e Inês, tiveram esse extraordinário sentimento, que chega ao heroísmo, através do oferecimento testemunhal da sua vida pelo Cristo, Amigo e Senhor.

Se formos analisar um pouco as tonalidades que a amizade assume, poderíamos acentuar, em primeiro lugar, o aspecto do intercâmbio de valores. Partindo do nosso relacionamento com Deus, constatamos que não temos qualquer “valor” para Lhe apresentar, excepto o que Ele mesmo colocou em nós: a consciência pura, a honestidade, a simplicidade, a generosidade, a doação de tudo a serviço dos necessitados. Todos estes elementos integram a amizade que nos une a Cristo e à Sua Igreja.

A amizade conduz à busca comum dos aspectos mais positivos que caracterizam cada personalidade. Se encontro um amigo, rico em valores humanos, culturais e até psicológicos, almejo que os compartilhe com a minha pobreza. Assim, ocorre uma espécie de “contágio” mútuo, que torna a amizade sólida e duradoura. Este cunho de “eternidade” é uma das características mais marcantes da amizade. Cristo no-lo prova ao dizer: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até à consumação dos séculos” (Mt 28,20). Ele está sempre connosco e em nós.

Abordando a amizade pelo enfoque psicológico, vemos que tudo o que se faz por um amigo não nos custa, pois a mais pura alegria se encontra no próprio acto de doação. Também é de grande valia colocar a nossa liberdade à disposição da amizade. Pensar, antes, naquilo que eu posso fazer pelo outro, do que naquilo que eu posso receber, conforme ensina Jesus: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,12-13).

O resultado de toda amizade é um grande enriquecimento pela plenitude que ela nos proporciona. Cristo enriqueceu todos os que com Ele assim se relacionaram. Ele prometeu: “Quando vos entregarem, não fiqueis preocupados em saber como ou o que haveis de falar, porque não sereis vós que estareis falando, mas o Espírito de vosso Pai é que falará em vós” (Mt 10,19-20).

Jesus pede de nós que o imitemos na amizade, reflectindo para quantos se relacionam connosco o amor que temos para com Deus nosso Pai, por Cristo, nosso Amigo, no laço unitivo do divino Espírito Santo.

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