BONDADE

 

O jornal mais anticlerical de Lisboa escreveu na notícia da morte do Padre Cruz: “Foi um extraordinário exemplo de bondade”. Sem incenso, na sobriedade de meia dúzia de palavras, ficou feito com rigorosa exactidão o seu elogio.

“Não é o génio, nem a glória, nem o amor que medem a elevação duma alma: é a bondade”, disse Lacordaire.

Monsenhor Bougaud, autor duma “História de S. Vicente de Paulo”, depois de ter descrito as qualidades de espírito e de carácter do Fundador da Congregação da Missão, diz que para fazer o elogio do seu coração bastava uma só palavra: bondade.

Tão grande era essa bondade, que o povo, antecipando-se a Roma, canonizou ainda em vida o bom senhor Vicente.

Tão grande era a bondade do Sacerdote Português, que também o nosso povo se antecipou a Roma, chamando-lhe o Santo Padre Cruz.

Pois que é a santidade? A semelhança com Deus. Mas quem pode assemelhar-se a Deus na sua Omnipotência ou Sabedoria? Só a bondade nos dá, na nossa fraqueza e ignorância, alguma semelhança com Deus.

Todos os santos são bons (se não fossem bons não seriam santos). Mas cada santo tem a sua virtude característica; a feição do Padre Cruz foi, como em S. Vicente de Paulo, a bondade. Ora, a qualidade especial da bondade é dar — é dar-se. Ambos se deram sem descanso e sem conta, até ao extremo das forças e da idade; ambos morreram velhinhos, tendo-se gasto ao serviço de Deus e do próximo.

 

A vida do Padre Cruz é um poema de bondade; por isso é tão difícil escrevê-la em prosa sem rima!

Tudo na sua vida se explica pela bondade. Numa das sessões para a pintura do seu retrato por Martins Barata, procurou-o uma senhora para lhe pedir que fosse ao Alentejo. Abriu a agenda e desculpou-se: já tinha outros compromissos para esses dias.

A senhora insistiu. Tentou-o com tudo: falou-lhe na festa, que seria -grande... na beleza da capela... afiançou-lhe que não se cansaria... prometeu-lhe até um presente.

– Tenho serviço. Não posso! Desolada, a senhora não conteve as lágrimas e exclamou:

– Se soubesse como aquela gente é desgraçada!

Tocou-lhe em cheio no coração. Folheou de novo a agenda, para trás, para diante:

– Está bem; irei.

As lágrimas – quando as sentia vindas do coração – comoviam-no sempre, e sempre a sua bondade espargia consolações.

Entrou um dia num comboio em que seguia uma senhora vestida de luto. Deixemos que ela própria nos conte:

“... As lágrimas brotavam-me ardentes, involuntárias quase. Quem ocupava o lugar da janela na carruagem onde o meu lugar estava marcado? O Rev.° Padre Cruz. Indagou bondosamente a causa do meu sofrimento, pediu o meu Terço, que indulgenciou, ofereceu-me a sua Via Sacra, recomendando-me de a rezar diariamente, e, envolvendo-me num doce olhar de bondade e compaixão, pediu a todos os presentes que o acompanhassem no Terço, que ele dedicou à alma da minha querida mãe”.

Tinha gestos encantadores de bondade.

Conta alguém que “leu as primeiras palavras em latim no seu Breviário”, que tendo, mais tarde, desistido da carreira iniciada, logo espontaneamente o Padre Cruz se deslocou de Lisboa para o procurar, levando-lhe “palavras que foram uma bênção de santo”, adivinhando “causas que só um santo podia adivinhar”, e continuando, ainda, depois dessa visita, a ampará-lo com “cartas cheias de conselhos evangélicos”. E revolvendo recordações, narra este episódio: “...Um dia, visitei-o na capela do Caldas. No fim da missa, dirigi-me à sacristia e ajoelhei-me a seus pés. Pressentindo-me a chorar baixinho, pegou dum lenço, tão branco como a sua alma, e sem saber como nem porquê, deu-mo para limpar as lágrimas. Quando vou para devolvê-lo, disse-me para ficar com ele. Estranhei o facto. O lenço era branco. Estava por usar. Tinha as iniciais do seu nome: F. C. Ainda hoje conservo, como relíquia, este lenço que ele me ofereceu.

...Só um santo poderia fazer uma coisa que o mundo alcunharia de loucura. Para mim foi um santo. Estou plenamente convencido que o é. Aguardo com o tempo a decisão da Igreja”.

A bondade do Padre Cruz levava-o, não só a ser compassivo, mas afável com todos. Quantos lidaram com ele, referem-se à sua afabilidade. Essa afabilidade não era desejo humano de agradar ou amabilidade de ricochete; nem tão-pouco uma afabilidade lisonjeira ou interesseira: era o transbordar dum coração bom e afectuoso.

O Padre Cruz faz-nos lembrar o garoto do “Milagre de Milão”, que, ao dizer a alguém “bom dia”, desejava na verdade que o dia lhe fosse bom.

“Dizia sempre o que sentia dentro da alma”. Por isso, por mais aparentemente banais que as suas palavras fossem, chegavam ao coração e faziam bem.

A sua bondade desdobrava-se tão naturalmente em delicadeza, que uma ilustre senhora, que com ele conviveu intimamente durante anos, dizia com graça: “Ainda bem que se pode ser santo e muito delicado!”.

Sim, a boa educação, a delicadeza, também ficam bem aos santos. S. Francisco de Sales chamava à cortesia “o troco miúdo da caridade”.

Tinha este cunho, a cortesia do Padre Cruz. A sua afabilidade não era a cortesia do homem da corte; era a bondade do homem de Deus. Ele não precisava, “para substituir a bondade que nos falta, de imaginar a polidez que tem dela as aparências”. Era delicado porque era bom.

A finura do seu trato era tanto para os grandes como para os humildes.

A sua delicadeza descia a pormenores enternecedores. Num dia de anos duma das Senhoras Caldas Machado, disse à Irmã, D. Isabel:

– Ó mana, são os anos da Senhora D. Joana; vá vestir o vestido de ir à rua.

Um santo a pensar nestas coisas!... Mas precisamente porque até nelas pensava, era santo! A santidade tem muitos cambiantes.

Bom e afável, por onde passava deixava sempre saudades.

São frequentes as cartas em que esta nota vem marcada: “Não imagina as saudades que nos deixou...” – “São muitas as saudades que senti-mos, destes dias passados aqui, em Vila Chã...”

 

A bondade foi ainda a sua grande força de missionário. “O génio não explica Deus; a bondade prova-o”. Era a bondade que lhe dava “a sedução espiritual que lhe sujeitava as consciências e abria os corações”. Era ela que nos seus olhos punha aquela claridade que iluminava todas as trevas e nos seus lábios abria aquele sorriso que ungia de doçura todas as dores. Era ela que o levava junto dos pobres, dos pecadores e dos infelizes...

Poderíamos alongar-nos indefinidamente sobre o tema da sua bondade, mas não vale a pena, porque tudo quanto diremos quando nos referirmos aos pobres, aos doentes, aos presos, às almas desamparadas e aos pecadores, é bondade, bondade, bondade.

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