Dor e sofrimento

A vida, não raro, apresenta-se-nos como um grande palco de sofrimento e dores. Contudo, o problema do mal no mundo tem desafiado até as inteligências mais privilegiadas sem terem obtido respostas satisfatórias. O sofrimento apresenta-se como uma espécie de enigma que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão.

Graças a Deus, a Sagrada Escritura vem em nosso auxílio para desvendar grande parte deste mistério.

Assim, ela mostra-nos, nas suas primeiras páginas, como é que a dor e o sofrimento entraram no mundo e, indica, também como esta consequência do pecado original será totalmente superada: "Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor e nem dor" (Ap 21,4). Porém, entre as primeiras e as últimas páginas da Bíblia, encontramos em quase todas elas a presença desta realidade.
A dor e o sofrimento, binómio inseparável, será sempre interpretado como castigo da infidelidade ao plano criador de Deus, inicialmente, e à Aliança, num segundo momento. Deste modo, mesmo as faltas mais escondidas estarão, de alguma forma, relacionadas com as atitudes de distanciamento dos dons concedidos por Deus à humanidade.

O sofrimento, presente na vida humana, somente encontrará uma verdadeira razão de ser, quando confrontado com o sofrimento de Cristo. Aliás, o conteúdo da pregação primitiva era exactamente a "paixão" do Senhor e a sua importância para a redenção da humanidade. Em Jesus todo o sofrimento passa a ter um sentido, porque não permanece na morte e na dor, mas sai vitorioso. São Paulo compreenderá profundamente isto e elaborará a teologia da cruz, tem- na central na sua pregação, pois a cruz significará sempre vitória, ressurreição e vida. O autor da carta aos Hebreus apresenta a figura do sacrifício de Cristo com uma imagem expressiva da redenção-salvação: "Cristo foi oferecido uma só vez para tirar os pecados da multidão. Ele aparecerá uma segunda vez, mas não por causa do pecado, àqueles que O esperam para lhes dar a salvação" (Hb 9,28).
O sofrimento na vida do cristão tem sentido na medida em que o discípulo de Cristo procura conformar-se com o seu Senhor. Ele passará a entender que essa configuração será tanto mais eficiente quanto melhor for compreendendo o mistério de Cristo.

Actualmente, o mundo está a padecer desta carência de sentido para a dor e para o sofrimento. As contínuas ameaças de guerras, as constantes provocações internacionais, os exageros e os extremismos de atitudes, até mesmo religiosos, parecem ignorar que a consequência desses actos serão sempre o sofrimento de uma grande multidão de seres humanos. No entanto, surdos aos clamores da justiça e incapazes de vislumbrar uma paz duradoura, há nações que ainda querem multiplicar a indústria bélica como solução para os males e fonte de lucro.

Quando a Igreja denuncia estes factos, ela procura, cada vez mais, ser fiel à sua missão de ser no mundo "sacramento de Jesus Cristo". Porque na terra já apareceu a Bondade de Deus.

A BONDADE DE DEUS APARECEU... Na sua carta a Tito, S. Paulo descreve de várias formas a bondade de Deus. O Apóstolo acentua o aparecimento, a teofania desta bondade junto a nós, para nos deixarmos envolver e englobar por ela, usufruindo assim da purificação e da regeneração, operada pelo Espírito Santo, que nos abre as portas da esperança de vida eterna. Esta Bondade, descrita também com nomes como benignidade, misericórdia, compaixão e outros, não é algo de abstracto ou ideal, mas identifica-se com uma Pessoa: Jesus Cristo, bondade do Pai e garantia do Espírito Santo. Trata-se de uma bondade visível, concreta e operante através de palavras, gestos e... silêncios. É a bondade em acção.

Talvez nenhum Apóstolo tenha sentido o efeito dessa bondade tão fortemente como Saulo de Tarso que, através dela, se converteu de judeu fechado e proselitista ao maior propagador do Evangelho da esperança em Jesus Cristo. Esta bondade arrebatou-o, fascinou-o. Muitas vezes ele repetia, como na carta aos Gálatas: "O Filho de Deus amou-me e se entregou a si mesmo por mim" (GI 2,20). É como se a vida do próprio Cristo ou sua existência o invadisse: "Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim"!

Diante da bondade nada resiste, nenhuma classe de pessoas se fecha a ela ou a rejeita. Pelo contrário, experimentamos, hoje mais do que nunca uma verdadeira fome e sede desta que deveria ser a característica mais humana, mais própria da nossa personalidade. Quantos sentem a ausência desta bondade nas suas vidas e nos ambientes de trabalho! Parece até que a crueldade, a insensibilidade, o terrorismo e a vingança suplantaram a bondade. Como entender a tristeza mortífera e devastadora da guerra ou do terrorismo? Como entender as ideologias, os sistemas políticos e económicos que contemplam a poucos em detrimento de milhões de semelhantes? Como entender o drama mundial da fome? Parece até verdade o que um pensador escrevia como aparente excesso de pessimismo a respeito do ser humano: "o homem tornou-se um lobo para outro homem".

Hoje, talvez, as pessoas que menos acreditam na bondade do ser humano sejam os mendigos, os chamados excluídos, os doentes, os jovens, os desempregados, os que vivem à margem da vida...

Contudo, há que fazer da bondade um programa de vida, uma peça fundamental nos relacionamentos humanos, um suporte para a cultura da solidariedade e da civilização do amor.

Na Sagrada Escritura a bondade de Deus aparece desde as primeiras páginas do génesis de tal forma que as criaturas todas, inclusive a família humana, aparecem como um espelho de Deus Criador: "E Ele viu que tudo era muito bom" (Gn 1,31). Mais tarde, nas narrativas do Êxodo, essa bondade reveste-se das entranhas de misericórdia para vir em socorro do povo escravizado. Exalta-se a bondade também em fórmulas culturais, especialmente nos Salmos. A bondade enlaça a todos: justos, pecadores, transviados.

Na "plenitude dos tempos", mediante a encarnação do Verbo, a bondade divina aparece viva e operante em cada gesto salvífico, que se derrama sobre todos os que andavam errantes, envoltos nas trevas do afastamento de Deus e à espera do Salvador.
O povo, no tempo de Jesus, e os próprios Apóstolos, eram fascinados e atraídos pela bondade contagiante do Mestre "que ensinava com autoridade": pela sua maneira de ser, de falar e de agir... Só Ele podia dizer: "Dei-vos o exemplo para que façais como eu fiz" (Jo 13,15). A sua bondade transformava-se em amizade, compaixão e milagres para convencer e converter até os corações mais encrustados na ignorância ou na própria maldade.
A Igreja conheceu a dor e o sofrimento desde a sua origem e sofreu, ao longo dos seus dois mil anos de existência, toda a sorte de perseguições, injúrias e difamações. Sempre, porém, conformando-se ao seu Mestre, faz todos os esforços para amenizar os sofrimentos e promover a justiça e a concórdia entre todos os povos, na trilha da paz verdadeira.
Onde há dor e sofrimento, nos mais diferentes níveis e nas distantes localidades, ali está a Igreja com a sua presença consoladora, testemunhando a mesma acção de Jesus Cristo, que percorria as cidades sempre fazendo o bem, debelando toda a sorte de males.

O bom Samaritano: A parábola do Bom Samaritano pertence ao Evangelho do Sofrimento. Indica qual deve ser a relação de cada um de nós para com o próximo que sofre. Não nos é permitido "passar adiante", com indiferença, mas devemos "passar" junto dele.

Bom Samaritano é todo o homem que se detém junto ao sofrimento de outro homem, seja qual for o sofrimento. Parar, neste caso, significa disponibilidade. Bom Samaritano é todo o homem sensível ao sofrimento de outrem, o homem que "se comove" diante da desgraça do próximo. É necessário, portanto, cultivar em si próprio a sensibilidade do coração, que se manifesta na compaixão por quem sofre. Bom Samaritano é todo aquele que presta ajuda no sofrimento, é aquele que dá a si próprio, o seu próprio "eu" ao outro. Bom Samaritano é exactamente o homem capaz do dom de si mesmo.

Saber sofrer: A dor, o sofrimento estão unidos à limitação humana, acompanham a vida de todos os homens e mulheres e parecem algo "colado" ao nosso próprio ser. Viver implica sempre, de um modo ou de outro, partilhar o sofrimento dos outros e vivê-lo em si próprio. Se é verdade que há uma dimensão cristã para o sofrimento, que deve associar-se a Cristo sofredor e oferecer com Ele as dores e sofrimentos do quotidiano; se é verdade que a Ressurreição de Cristo dá um sentido novo, alegre, redentor ao sofrimento humano e converte-o em plenitude de redenção e de alegria, também é verdade que sofrer custa e é preciso saber sofrer e aprender a sofrer.

O Santo Padre Cruz é para nós um exemplo do saber sofrer unindo-se a todos os que sofrem, fazendo corpo e comunhão com toda a dor humana, que aceite e amada, liberta, purifica, salva, repara o pecado e nos faz "redentores" com cristo Redentor.

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