
Almas Desamparadas
Parecerá
talvez supérfluo este assunto, depois de termos já tão
largamente falado da caridade do Padre Cruz para com os pobres, os doentes,
os presos e os pecadores. Mas a gama do sofrimento e da miséria é
infinita: sofrem os pobres e os ricos, os doentes e os sãos, os presos
e os homens livres, os pecadores e os justos.
Almas desamparadas, são todas aquelas que carecem de assistência,
amparo e protecção.
E não é só nos tugúrios dos pobres, nos hospitais
e prisões, que existe aflição e desamparo: também
sobre o trono real se assenta a dor! O Padre Cruz sabia sentir com todos:
reis e mendigos.
Não possuímos a carta que ele escreveu à Rainha D. Amélia,
quando faleceu seu filho, D. Manuel II. Mas temos a resposta da Rainha, escrita
de Fulwell Park, Tivickenham: Agradeço-lhe do coração
a sua compaixão pela dor atroz que me tortura, e que muito me comoveu
por vir de quem vem. Também agradeço a Via Sacra` e a Santa
Missa por alma de El-Rei, pedindo se não esqueça de pedir a
Deus também por mim - Amélia.
Em toda a parte se encontra quem possa dar a mesma resposta daquele homem
que contemplava a barca de Dante:
- Quem és tu? - perguntou-lhe Beatriz. - O meu nome? Um que chora...
Todos nós, pelo menos em certos dias, encarnamos a personagem da Divina
Comédia.
- Quem sou? Um que chora!
Sem dúvida, nem tudo é triste na vida; existem dias de alegria
como existem dias de Sol.
Mas por muito que a boca ria, ainda mais os olhos choram. Quem poderá
com verdade responder: - O meu nome? Um que canta e ri!
A canção da felicidade é breve. E quando a felicidade
finda, fica tão pouco dela, como pouco fica do dia quando a noite desce.
A claridade da aurora, o Sol ardente do meio-dia e os esplendores do poente,
onde estão?!
Glória, ventura... desaparecem no rodar do tempo, como no rodar da
terra desaparece a luz.
O Padre Cruz passou a vida inteira a fazer o bem e a consolar. A sua bondade
natural atraía e as suas virtudes fortificavam.
Se pudéssemos fazer passar por estas páginas a multidão
das almas desamparadas que o procuravam, poderíamos exemplificar a
ladainha da dor, que Lamennais escreveu:
"Eram pobres sem pão para dar de comer à família:
"como animais a que falta pastagem para as suas crias".
Eram mães que choravam a morte dum filho: "como a ovelha a quem
tiram o seu cordeiro".
Eram jovens em perigo de perder a honra: "como a pomba que o milhafre
arrebata".
Eram mulheres nas tentações da carne: "como a gazela sob
as garras do tigre".
Eram pais sem trabalho e exaustos de lutar pela vida: "como o touro esgotado
de fadiga e ensanguentado pelo aguilhão".
Eram desgraçados que a desdita perseguia: "como a ave ferida que
o cansaço persegue".
Eram velhinhos fatigados da longa caminhada da vida, sem amparo na velhice:
"como a andorinha caída de cansaço na travessia do mar
e debatendo-se com as vagas".
Eram solitários de afectos: "como os viajantes perdidos no deserto
ardente e sem água".
Eram vencidos da vida: "como náufragos sobre uma costa estéril".
Eram espíritos inquietos e temerosos: "como aquele que à
hora em que a noite desce, encontra junto dum cemitério um espectro
horrível".
Eram almas em agonia e trevas: "como Cristo sobre a Cruz, quando disse:
Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?"
...Todos a gritarem ao Padre Cruz a sua dor, para que ele os consolasse e
lhes valesse!
À sua porta era um perpétuo desfilar de almas desamparadas.
Enquanto pôde, recebia a todos, sem nunca se mostrar enfadado - e só
Deus sabe quanta paciência é precisa para ouvir certas histórias
de infortúnios que se alongam em pormenores inúteis e queixas
sem fim! Exige uma paciência heróica.
Uma pessoa saía... outra entrava...
E ele sempre com o mesmo sorriso que ia direito ao coração e
o abria. Bastava a afabilidade do seu acolhimento para consolar, a sua bênção
para sentir a alma aquietada.
Quando lhe diziam que estava já muito cansado e seria melhor não
receber mais ninguém, objectava:
- Quando vou fazer um pedido, também gosto que me atendam. E assim,
como não se mostrava aborrecido com os desabafos e queixumes, também
nunca se impacientava com as pessoas que iam solicitar favores.
Os pedidos de emprego eram tantos que nem o Comissariado do Desemprego poderia
atender tantos pretendentes!
Interessava-se. Recomendava. Mas, vendo a dificuldade, dizia com um sorriso
a dulcificar a incerteza:
- Ó meu irmão, eu não sei se lhe poderei arranjar o que
me pede; mas uma coisa certa, essa sim, lhe arranjo: é um lugarzinho
no céu com uma boa confissão e uma boa comunhão!
E quantos " lugarzinhos no céu" assim terá arranjado!
Não se poupava a passos e pedidos para conseguir trabalho para os desempregados
e resolver outras dificuldades de ordem material. Apesar de todo o seu espírito
sobrenatural, compreendia que, se nem só de pão vive o homem,
o pão é indispensável para a vida. Não é
possível chegar às almas, se primeiro não se atende e
ajuda a resolver os problemas materiais.
O primeiro contacto do Padre tem de ser de simpatia; a primeira resposta do
Padre tem de ser de bondade. No encontro do homem com o Padre, este tem de
começar por ser humano para poder depois agir sobrenaturalmente. Saber
acolher, saber escutar, auxiliar com boa vontade, sem fazer sentir demasiado
a protecção e fazendo sentir muito a amizade - já é
fazer tanto bem!
O povo humilde corria para ele; não o deixavam andar, quase que o abafavam,
mas ele não gostava que afastassem de si os pobres para o não
incomodarem.
- Nosso Senhor, quando andava neste mundo, deixava que todos se aproximassem
e a ninguém afastava - disse um dia em suave censura a uma senhora
que, percebendo o seu cansaço, procurou libertá-lo da multidão
que o rodeava.
- O senhor Padre Cruz está ainda tão combalido, é a primeira
vez que sai depois da sua doença - retorquiu a senhora a justificar-se.
- Coitadinhos! Tenho pena que os sacudam, e gosto de dizer-lhes umas palavrinhas'...
E essas "palavrinhas", com o seu sorriso que afagava e a virtude
que saía dele, derramavam doçura e consolação
- e as pessoas sentiam-se amparadas por Deus.
Era para ele um grande sacrifício não poder receber todos aqueles
que desejavam falar-lhe.
Quando, no fim da vida, por motivo de doença, o médico lhe proibia
receber visitas, ao acabar de celebrar missa na capela da casa do Largo do
Caldas, voltava-se para o povo, a desculpar-se, com uma simplicidade tocante,
em que transparecia a sua mágoa e caridade:
- Desculpem! Não posso atender ninguém, porque já estou
muito velhinho e cansadinho! Mas se se querem confessar, está aí
o senhor P. Aparício (O capelão da casa).
Também lhe escreviam muito, pessoas de todas as classes sociais. Por
algumas cartas conservadas (a maioria foram destruídas à medida
que iam sendo respondidas), pode avaliar-se o que era essa correspondência.
Todas parecem escritas mais com lágrimas do que com tinta. Todas são
assinadas por um que chora.
"Nunca conheci carinho de mãe..." E o homem que escreve estas
palavras acolhe-se ao seu amor sacerdotal, tão imenso como um coração
de mãe!
Quantas almas desamparadas põem nele a sua última esperança!
"É uma rapariga casada, mãe de 4 filhos, que de todo o
coração e com toda a fé se dirige a V Rev.a, numa fase
má da sua vida, para vos pedir que a não esqueçais nas
vossas orações. Estou casada há sete anos, e meu marido
tem-me amargurado a vida. É muito estroina e boémio. Bom coração,
má cabeça. De vez em quando deixa-me e lá vai para a
pândega, completamente desnorteado. Tenho feito tudo quanto há
para ver se o prendo a mim, mas nada tenho conseguido. Sofro com isto, porque
gosto muito dele. Muito queria que V Rev.a me dissesse o que devo fazer".
"...Meu marido abandonou-me com três filhinhos, foi para o Brasil
e não me manda nada. Peça a Nosso Senhor a sua volta" -
escreve outra esposa.
"...Reze por nós! Tenho a certeza absoluta de que a sua oração
fará voltar meu marido e tornaremos a ser felizes" - escreve-lhe
outra mulher casada, esta rica de meios de fortuna, mas que sofre tanto no
seu coração que a própria vida lhe foge num mal que os
médicos não sabem curar! - "Se o milagre se fizer, levar-lhe-ei
o meu marido e os meus filhinhos para que beijem as suas santas mãos"...
Estas cartas, em que lhe contavam infelicidades matrimoniais, entristeciam-no
muito.
- Maldito vício da impureza - exclamava. E punha-se logo a rezar e
pedia orações.
Havia casos destes que acompanhava durante largo tempo, tentando tudo para
conciliar os esposos desavindos.
Várias vezes escreveu a um marido, que abandonara o lar, aconselhando-o
a viver com a mulher e pedindo-lhe para lhe ir falar, pedido que não
foi atendido. Esta atitude desanimadora não venceu a sua caridade.
Informou-se onde o senhor trabalhava e a que horas poderia encontrá-lo,
e foi pessoalmente procurá-lo. Mas logo naquele dia, por pouca sorte,
o elevador não funcionava, e como era num quinto andar e ele se encontrava
então bastante doente, não lhe foi possível subir.
Voltou para casa muito triste. Não esqueceu o caso, que lhe estava
atravessado no coração. E muitas vezes perguntava: - A senhora
X não tem escrito?
Pobre velhinho, a quem as dores alheias tanto atormentavam ainda! Cada carta
o fazia entrar num acto do drama da vida.
Uma outra esposa infeliz, por motivos diferentes, mas tão duros também,
escreve-lhe:
"...No meio da minha angústia ocorreu-me o nome de V Rev.a para
que junto de Nosso Senhor interceda por mim, para que me proteja e ampare
na minha desdita".
O Padre Cruz guardava as confidências e a todos respondia com palavras
de conforto e bom conselho.
Por isso, quando ele morreu, até os ricos se sentiram pobres, porque
"nenhum peso de ouro ou prata equivale ao valor dum amigo fiel".
Nas cartas que lhe escreviam passavam todos os desabafos. Até penas
de amor!...
Uma jovem queixava-se-lhe do namorado, que primeiro só queria casar
pelo civil, agora nem assim quer casar! "E eu tenho-lhe muito amor, só
penso nele. Sinto-me muito infeliz! Meu querido Padre, peça a Deus
que este casamento se realize e na lei d'Ele".
E não eram só raparigas que se lhe dirigiam por desgostos de
coração. "...Eu sou, senhor Padre Cruz, um homem duplamente
torturado na sua alma e no seu coração. Nos seus conselhos,
na sua bondade, na sua misericórdia deponho as minhas últimas
esperanças. E quero pedir-lhe, senhor Padre Cruz, que reze um pouco
por mim a Nosso Senhor para que Ele me dê a minha noiva que me tiraram,
e eu não posso nem quero viver sem ela!"
Tudo lhe pediam: graças para a alma e bens para a vida.
Uma viúva pede-lhe para o filho não ir à tropa, porque
é fraco e lhe fará muita falta o que ele ganha... já
tem tantas dívidas que a afligem! Uma esposa, cheia de desgosto por
não ter filhos, pede-lhe essa graça. Uma mãe pede-lhe
boa viagem e boa sorte para um filho que vai partir.
Tudo lhe pedem.
É um ceguinho que precisa de ser internado. É um desviado do
bom caminho que se quer casar e não tem meios.
Até uma mulher, que fazia rendas, lhe pede... o quê?! "Como
anda por muitos lugares, se me pudesse vender as minhas rendas...".
- Nesta é que eu nunca pensei!... Eu a vender rendas por essas terras
fora!...E ria, muito divertido com a ideia!
Não vendia rendas, mas... comprava atacadores! Quando faleceu, encontraram-lhe
uma caixa cheia de atacadores, que nunca usou, mas que ia comprando para ajudar
os vendedores ambulantes!
Tudo lhe pedem.
Coragem e fé. "Tem salvado tantas almas, não deixe que
a minha se perca. Peço-lhe, por amor de Deus, acuda à minha
alma que se vê na iminência de naufragar!"
Tudo lhe pedem.
Conversões de pessoas queridas. Bom viver na família. Paz para
espíritos atormentados.
"...Escrevo-lhe no meio duma grande aflição, para lhe pedir
as suas boas orações a Nosso Senhor. Temos tido uma vida muito
atribulada, e o meu marido atravessa uma das suas grandes crises de neurastenia.
Só Nosso Senhor nos pode valer, por isso muito precisamos das suas
orações". Meu Deus! Quantas tragédias na vida!
São lares prestes a desmoronar-se. Divórcios que vão
para tribunal. "Valei-me, Santo Padre Cruz".
Ai daquele que em certos momentos, quando tudo na vida parece falhar, não
tem quem lhe diga uma palavra de consolação e esperança!
Leão Bloy traduziu dum modo terrivelmente expressivo esse desamparo:
"Ah! fosse o que fosse e viesse donde viesse, ainda que fosse dum animal,
quando se está acabrunhado de sofrimento!"
A esmola da consolação... a esmola da esperança, com
que largueza o Padre Cruz a deu!
Tudo lhe pediam, desde as coisas maiores às mais pequenas. Os pedidos
chegavam-lhe de todo o lado, até do estrangeiro.
Só isto!...
"...Peço-lhe por um doentinho... E por que está doente
e sofre tanto, coitadinho! Eu queria que ele tomasse umas uvas que fazem muito
bem, mas ele não quer tomar, diga-me, senhor Padre Cruz, se devo insistir.
E peço-lhe por minha filha que tem de ser radiografada para ser operada,
peça a Nosso Senhor que não seja precisa a operação.
E peço-lhe por minha sobrinha, que está para dar à luz
e anda com muito receio, reze por ela para que tenha uma hora feliz. Peço
também por meu filho e meu sobrinho para que Nosso Senhor os converta,
e peço ainda por um rapaz que está doente, dizem enfeitiçado"...
Poderá fazer sorrir o tom ingénuo desta carta, mas enternece
também, porque é o derramar dum coração cheio
de cuidados num coração amigo que merece uma confiança
imensa!
Nem todas as cartas, como esta em que o estilo deixa adivinhar uma pessoa
humilde, eram assinadas por pessoas anónimas. Há títulos
precedendo nomes, assinando cartas, há papéis timbrados com
coroas heráldicas.
A tristeza não é exclusivo dos pobres!
"A riqueza é muitas vezes o fim de uma miséria e o princípio
de outra".
Nos intervalos em que ditava as respostas (quando, já muito velhinho,
não podia escrever pela sua mão), ia passando as contas do rosário;
decerto a pedir pela pessoa a quem a carta era dirigida.
Por vezes, o silêncio prolongava-se; a sua "Secretária"'
olhava para ele, julgando que tivesse adormecido. Mas não! Estava a
rezar. E daí a momentos continuava a ditar, como se tivesse acabado
de tratar com Deus o que havia de responder.
Em todas as respostas transparecia a sua bondade e o seu espírito de
fé. Aos seus sentimentos naturais de simpatia juntava sempre palavras
de resignação sobrenatural.
Queria que tudo recebessem da mão de Deus e de todas as tribulações
tirassem proveito para a alma.
Em tudo ele via a vontade de Deus, e procurava dar aos outros essa mesma visão
de fé e plena conformidade com a vontade divina.
Não é esse o melhor modo de consolar, fazer aceitar como uma
bênção a própria cruz? Não é esse
o meio de "tirar mel da pedra e óleo do rochedo"? Não
é essa a maneira de conseguir que tudo concorra para o bem dos que
amam a Deus?
Apesar de tudo sobrenaturalizar, o Padre Cruz não se escandalizava
com as lágrimas. Não chorava ele tanto pelos seus, quando Deus
os levava? Mas que Deus fosse louvado! E que a esperança do céu
consolasse na separação. Não queria que chorassem como
aqueles que não têm esperança.
"Tomo parte no seu grande desgosto - escreve a uma mãe que lhe
participou a morte duma filhinha. Mas, segundo a fé, deve ter tanta
consolação de ser mãe dum anjinho que foi para o céu,
onde está a pedir ao nosso bom Deus pelo seu querido Pai e Mãe.
Assim, temos a certeza que ela está no céu, e se vivesse, devia
ter muitos cuidados para que ela vencesse sempre os inimigos da nossa alma.
Lembre-se sempre desta máxima: "A perfeição do amor
divino consiste em aceitar a santíssima vontade de Deus".
Deus a deu, Deus a levou para a sua Santíssima companhia.
Não escreva em papel preto. A Santa Igreja para os anjinhos manda repicar
os sinos".
Era sempre pronto em mandar os sentimentos, prometendo as suas orações
pelo eterno descanso das almas que Deus levara e, se podia, visitava a família.
As suas consolações não eram piegas; tinham o alento
forte da fé. Às pessoas que tinham qualquer tribulação,
ensinava: "Jesus, Maria, José, ajudai-me a não dar que
sofrer. Ver, ouvir, sofrer, calar". Recomendava-lhes também que
rezassem a oração ao Espírito Santo (pagela que metia
em quase todas as cartas).
Não é o Espírito Santo, por excelência, o Divino
Consolador? Não é Ele a força que leva a aceitar o cálice
com resignação e a levar a cruz com alegria? Não é
Ele o divino amparo das almas desamparadas?
Não gostava que as pessoas maldissessem da sua sorte. Sofrer, é
uma coisa; dizer mal da vida, é outra...
"Só é infeliz quem ofende a Deus Nosso Senhor e sofre sem
paciência. O sofrimento resignado na graça de Deus é uma
fonte fecunda de merecimentos para o céu. Peçamos ao nosso bom
Deus com muita fé; façamos confissões e comunhões
bem feitas, e teremos muita paz e alegria no Senhor".
A alguém que lhe escreveu uma carta cheia de queixas contra outra pessoa,
respondeu apenas: "Paz, PAZ, MUITA PAZ", sublinhando cada palavra
num crescendo.
Não queria que ninguém se considerasse infeliz por contrariedades
da vida; a felicidade está mais alto!
Gostava de repetir estas palavras de Santo Inácio: "Somente é
feliz neste mundo quem tem o coração em Deus e Deus constantemente
no coração"; por conseguinte, só é infeliz
quem perdeu a graça de Deus.
Se estavam em graça, que se alegrassem no Senhor! Se tinham perdido
a amizade de Deus, que a buscassem depressa, numa boa confissão e fervorosa
comunhão.
As suas cartas e a sua presença faziam sempre bem.
Lemos numa carta em que lhe agradecem uma visita: "As suas palavras a
X fazem-lhe imenso bem. Dão-lhe calma, ensinam-lhe a ter mais resignação
pela confiança em Deus, que tudo vê e dirige. Sentimo-nos mais
amparados. Deixamos de ser o batel ao sabor das ondas".
Sim, o Padre Cruz sabia levar as almas para "o porto seguro da verdadeira
esperança".
Fazia-as levantar os olhos para o alto. E quando se levantam para o céu
os olhos cheios de lágrimas, dizem que as estrelas entram dentro dos
próprios olhos e toda a tristeza se perde na imensidade do céu...
O Padre Cruz não tinha a eloquência de Jacinto Benavente, que,
fazendo literatura, criava beleza. Mas tinha o dom de criar beleza com verdade.
Num gesto, numa palavra, apontava o céu! E os olhos alagados de lágrimas
encontravam o olhar de Deus a buscar o seu olhar... E a sua dor perdia-se,
não apenas na "imensidade da dor humana" - o que seria fraca
consolação -, mas no infinito amor de Deus.
Milagre! Os olhos deixavam de chorar, os lábios já sorriam...
"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados".
Maria
Joana Mendes Leal
"O Santo Padre Cruz"
Editorial A.O. - Braga
Oxalá que nunca passemos um dia sem estar
em comunhão com a dor do mundo. (Abbé Perre)