V er
                                                     
Jesus
                                                                       R essuscitado

 

(D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales - Brasil)

Os Evangelhos testemunham o nexo indissociável entre Paixão e Ressurreição. Jesus enfrentou a paixão, consciente que chegaria à ressurreição. Ressuscitado, continuou agindo em coerência com os motivos que o tinham levado a enfrentar a paixão.

Na paixão, agiu como servo obediente, submisso aos acontecimentos, que ele ultrapassava pela motivação interior com que os vivia.

Ressuscitado, agiu como Senhor, conduzindo os factos com soberania, administrando-os em função do despertar da fé nos seus discípulos, de os reconduzir à comunidade e de os enviar em missão.

Neste contexto, as suas aparições foram módicas, raras, breves, e sempre em função de suscitar a fé, e de motivar para a missão.

A coerência com a paixão fica ressaltada, de maneira especial, pelo facto do Ressuscitado não ter aparecido a ninguém daqueles que o tinham condenado. Crucificado, não aceitou as provocações dos algozes e perdoou a todos. Ressuscitado, não se vingou de ninguém, não usou o seu poder para forçar o reconhecimento da sua vitória, não deu nenhum espectáculo, não se impôs a ninguém.

Só apareceu aos que tinham a mecha fumegante da fé. E assim mesmo, de maneira muito discreta, em função de a reacender, para que com ela seguissem em frente, e levassem a Boa Nova aos outros, para também acreditarem.


Aí encontramos o primeiro critério para a questão que hoje se coloca, a propósito do significado verdadeiro do “ver Jesus”. A fé é o caminho indispensável para irmos ao encontro de Cristo. É pela fé que agora podemos dar-nos conta da verdade e das consequências da sua ressurreição.

Os Evangelhos oferecem lições concretas e práticas, pela maneira como descrevem a presença do Ressuscitado junto dos seus discípulos.

É uma presença percebida através de sinais, que instigam para a reflexão, abrem caminho para a compreensão, e levam à elaboração interior da certeza da fé. É esta convicção interior que leva ao reconhecimento da verdade. Sem ela não acontece a visão do Ressuscitado.

As mulheres e os discípulos não viram logo Jesus. Viram primeiro o sepulcro vazio. Viram anjos que recordaram as palavras de Jesus. E quando começaram a ver Jesus, não o reconheceram logo. Foi preciso ouvir a sua voz. Assim aconteceu com Madalena, com os discípulos de Emaús, com os apóstolos à beira do lago.

Aí temos outro critério importante nesta questão de “ver Jesus”. A palavra educa mais para a fé do que a visão. Pois ela instiga mais a elaboração interior. A visão pode bloquear, a palavra abre a mente e o coração. “Não estava ardendo nosso coração enquanto ele nos falava pelo caminho?”, perguntam-se os discípulos de Emaús.

As visões foram breves, e todas em função da missão. “Ide depressa contar aos discípulos” (Mt 28,7), falou o anjo às mulheres. O próprio Jesus reitera: “ide anunciar aos meus irmãos” (Mt 28,10). Ao partilharem o pão, os discípulos de Emaús reconheceram o Mestre, que logo desapareceu, e eles partiram de imediato para contar aos companheiros. E quando Jesus apareceu a todos reunidos, foi para os enviar solenemente em missão.

As aparições não são ponto de chegada, são ponto de partida para a missão. Ver Jesus não é objectivo, é impulso para o anúncio da Boa Nova.

A visão é importante na medida em que nos mostra Jesus assumindo formas concretas de realidades humanas, a partir das quais podemos reconhecer a sua presença. Para Madalena mostrou-se em forma de jardineiro. Para os discípulos de Emaús em forma de viandante. Para os apóstolos à beira do lago em forma de estranho. A partir do que vemos, a fé conduz-nos a reconhecer o Senhor nestas presenças humanas concretas.

Ver, portanto, é só um início, que precisa ser trabalhado pela fé. O próprio Jesus interpelava os fariseus, que viam os sinais, mas não acreditavam. A respeito dos gregos que queriam “ver Jesus”, ele aproveita para falar do seu mistério pascal, lembrando que o Filho do Homem teria a mesma sorte do grão de trigo, que morrendo produz muito fruto.

A paixão permanece o sinal que todos viram, e todos podem ver. Mas o Ressuscitado apareceu “não a todo o povo, mas às testemunhas designadas de antemão por Deus” (Actos 10, 41). A Tomé, que insistiu em ver para crer, Jesus dá o critério final e decisivo: “felizes os que creram sem terem visto” (Jo 20,29).

B esta alegria maior que Cristo agora nos oferece, e que todos devemos buscar.

 

 


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