
O Ano Litúrgico do Padre Cruz
A Páscoa
O Padre Cruz vivia tanto em Deus, que a sua vida estava completamente integrada no ciclo litúrgico.
Para ele, não havia Primavera, Verão, Outono e Inverno, mas Advento, Natal, Quaresma, Páscoa e Pentecostes.
Sucedia com ele o que D. Guéranger diz que sucede com algumas almas: “de tal modo presas à sucessão divina do ciclo católico, que chegam a ressentir fisicamente as evoluções, a vida sobrenatural absorvendo a outra, e o Calendário da Igreja o dos astrónomos”.
Pelos seus escritos aos sacerdotes associados na “União Apostólica”, vamos seguir o fio da sua vida litúrgica através do ano e ainda as suas grandes devoções.
A festa da Imaculada Conceição, com a novena e a oitava, davam-lhe, logo no começo do Advento, ocasião para lembrar a purificação necessária para bem celebrar o Natal.
“Quanto esta festa nos ensina o amor à graça divina e ódio a todo o pecado, e assim vivermos santamente, visto que nas nossas mãos, quando consagramos, encarna de novo o mesmo Senhor que encarnou nas puríssimas entranhas da Imaculada”.
Lembrava também “a novena de preparação para a grande festa do Santo Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.
O Natal, desejava que fosse um nascimento espiritual, que nos torne verdadeiros filhos de Deus, irradiação da luz do Verbo no mundo. “Não esqueçamos os santos conselhos de S. Paulo na Epistola a Tito: Apparuit gratia Dei Salvatoris nostri... Haec loquere... da 1.a missa do Natal e da Circuncisão do Senhor: passemos o novo ano como se fosse o último da nossa vida, evitando todo o pecado e praticando todo o bem que pudermos”.
Que diz essa passagem de S. Paulo que o Padre Cruz dá como programa de vida?
“A bondade de Deus Nosso Senhor apareceu a todos os homens, ensinando-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos e a viver sóbria, justa e piamente neste século, aguardando a esperança bem-aventurada e a vinda gloriosa do grande Deus e Salvador Nosso, Jesus Cristo, o Qual Se deu a Si mesmo por nós, para nos remir de toda a impiedade e purificar-nos para Si como povo agradável e zeloso pelas boas obras. Prega estas coisas, exorta e repreende com toda a autoridade em Jesus Cristo Nosso Senhor”'.
A Quaresma era considerada por ele um santo tempo que pedia santa vida.
É esse o espírito da Igreja; tempo de afastamento de prazeres mundanos e de penitência, de mais oração e boas obras, é o “tempo favorável” para a santificação.
Toda a liturgia deste tempo prega a luta contra o pecado, a morte a nós mesmos, para ressuscitarmos com Cristo.
“Lembremo-nos que estamos no Santo Tempo da Quaresma, e para o passarmos muito santamente, muito nos ajuda a meditação dos santos Evangelhos de cada dia, e o piedoso exercício da Via Sacra”.
Sim, a Quaresma é o tempo em que a Santa Igreja fica absorta na contemplação dos mistérios de Cristo e procura purificar os fiéis na ascese da doutrina evangélica.
A meditação dos Evangelhos da Quaresma leva à imitação de Cristo, e a Via Sacra a segui-Lo de perto na sua Paixão.
A Semana Santa, dias em que a Igreja comemora dum modo especial o mistério dos sofrimentos e morte do Redentor, revivendo o drama que tem o seu desfecho no Calvário com Cristo pregado no lenho da Cruz, para destruir com a sua morte o pecado e nos restituir a vida, eram para o Padre Cruz “os dias mais santos do ano. Peçamos à nossa Mãe Santíssima que nos alcance do Coração do seu Divino Filho a graça de os passarmos com os mesmos sentimentos com que os passavam os santos que estão no céu, e as almas mais justas que há na terra, e que derramemos lágrimas de compaixão dos sofrimentos de Nosso Senhor e das dores da Nossa Mãe Santíssima, de contrição dos nossos pecados e reparação das ofensas que recebe dos pecadores”.
Para ele,essesdias não eram apenas uma remota lembrança histórica; eram uma realidade de momento, que o fazia chorar sofrendo com Cristo e sua Mãe Santíssima, que lhe partia o coração de dor pelos seus próprios pecados e o levava a reparar também os pecados alheios, como Cristo que “tomou sobre Si as nossas iniquidades e carregou com as nossas dores”.
Mas quando os aleluias soavam, queria que todos se alegrassem com Cristo ressuscitado.
Ele sentia com a Igreja, e não é a Páscoa a “solenidade das solenidades” em que a Santa Igreja nos convida a alegrar-nos?
“Estamos no santo tempo pascal! Pensamento santo que tanta alegria nos causa meditando na Ressurreição gloriosa do nosso Amantíssimo Salvador, a qual tanto firma a nossa fé e consola a nossa esperança da nossa ressurreição gloriosa: quae sursum sunt...”.
Duplo motivo de alegria: Cristo, nossa esperança, ressuscitou, e nós ressuscitaremos com Ele! “Ó morte, onde está a tua vitória?” No duelo entre a morte e a vida, a Vida venceu!
Quem poderá sentir-se triste, se a Páscoa tiver realmente sido, para si, a passagem do pecado à graça, ou de uma vida já em graça a uma vida mais perfeita?
“Lembremo-nos muitas vezes das santas palavras de S. Paulo: Si consurrexistis cum Christo (ad Coloss.) in novitate vitae ambulemus (ad Rom.). Ipse reformabit corpus (ad Philip.). Quando dizemos Gaude et laetare, procuremos alegrar a nossa Mãe Santíssima com a nossa ressurreição espiritual, real, permanente e visível, e seremos instrumentos da Divina Misericórdia para a ressurreição de muitas almas”.
Todo o espírito litúrgico das festas pascais está contido nestas palavras do Padre Cruz.
Se ressuscitamos com Cristo, não podemos viver mais no pecado, que é a morte; temos de procurar as coisas do alto, caminhar diante do Senhor, louvando a Deus de todo o nosso coração. Viver vida nova, isenta do fermento do pecado, vida pura e santa de ressuscitados.
O Padre Cruz não separava, como a Igreja não separa, Cristo de sua Mãe, nas alegrias da Ressurreição.
Exultai e alegrai-Vos, ó Virgem Maria, aleluia! Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente, aleluia! E recomendava que rezassem três vezes por dia a Regina Coeli.
As Chagas de Cristo eram também uma festa da sua especial devoção e que muito recomendava e queria que recomendassem.
“Querendo o nosso Santíssimo Salvador conservar as suas Preciosíssimas Chagas, tenhamos para com elas a devoção que tinha Santo Agostinho quando dizia: Não achei remédio mais eficaz para toda a minha miséria que as Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nelas descanso em paz com toda a segurança.
Tenhamos uma grande devoção às 5 Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, principalmente à Chaga do SS. Coração de Jesus, beijando sempre com muita devoção o nosso Crucifixo, dizendo com muito fervor: dentro das vossas Chagas escondei-me e não permitais que me separe de Vós” .
Os meses também para ele mudavam de nome.
Março era o mês de S. José: «A quem devemos ter muita devoção, admirando-o, amando-o, invocando-o e imitando as suas santíssimas virtudes». E recomendava a Jaculatória: Jesus, Maria, José, alumiai-nos, socorrei-nos, salvai-nos.
Maio era o mês de Maria: «Mês que devemos passar muito santamente, de modo que a nossa vida seja uma fiel imitação da vida de tão admirável Mãe, e dizermos muitas vezes: Quid nunc Maria?».
Junho era o mês do Sagrado Coração de Jesus: «Formemos santos propósitos de sempre O conhecermos, amarmos e imitarmos e procurarmos que muitas almas O conheçam, amem e imitem. Tudo por Vós, Coração Santíssimo de Jesus! Nada que Vos ofenda, tudo para vossa glória; tudo em união com o vosso Santíssimo Coração, desejando sempre consolá-Lo e procurar-Lhe muitos consoladores com espírito de reparação, neste mês consagrado ao Santíssimo Coração de Jesus».
Outubro era o mês do Rosário: «Lembremos muito as santas palavras do S. Padre Leão XIII: "Exorto-vos instantemente que persevereis na recitação devota e constante do SS. Rosário".
E para ser devota, não esquecer a meditação dos mistérios do SS. Rosário e as virtudes que eles nos recomendam e assim será oração vocal e mental.
Rainha do Santíssimo Rosário, rogai por nós! Nossa Senhora do Rosário de Fátima, salvai-nos e salvai Portugal! Conservai-nos a paz que temos e dai às outras Nações a paz que não têm».
Novembro era o mês das Almas do Purgatório: «Sufraguemos as almas do Purgatório e procuremos afervorar os fiéis nesta devoção».
E indicava esta oração:
«Almas benditas, nós pedimos por vós, pedi vós por nós, alcançando-nos do Senhor a graça duma santa vida e uma santa morte, para nos juntarmos todos no céu. Assim seja. Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. Amen» 4 .
As festas de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e de alguns Santos, eram sempre lembradas aos Associados da «União Apostólica» com palavras em que transbordava a sua devoção.
Das festas de Nosso Senhor Jesus Cristo, aquela de que com mais frequência fazia menção (exceptuando o Natal e a Páscoa) era a festa do Sagrado Coração de Jesus: «Lembremo-nos muitas vezes da bela jaculatória: Seja conhecido, amado e imitado o Sagrado Coração de Jesus, desejando ardentemente conhecer, amar e imitar este Divino Coração; e procuremos generosamente que Ele seja conhecido, amado e imitado por muitas almas; e preparemo-nos todos (com a novena) com muito fervor para a grande festa da próxima sexta-feira: consolarmos e atrairmos muita consolação a este Amantíssimo Coração».