
Alegrias da Ressurreição
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

Que há na alegria que não passa ou que alegria é essa que não acaba? Qual o “segredo” da verdadeira alegria? Os discípulos foram testemunhas da Ressurreição do Senhor e alegraram-se (cf. Jo 20,20); muito tempo depois ainda se podia ouvir de um daqueles que tiveram o privilégio de ver e de se encontrar com o Senhor Ressuscitado: Aleluia! A salvação, a glória e o poder ao nosso Deus...? (Ap 19,1).
Esquecendo-nos de toda a trama do exílio em que se encontrava, o discípulo amado canta o triunfo celestial e celebra os merecidos dons do Ressuscitado. Diante dos seus olhos ainda se levanta a coluna de fogo simbolizada pelo Círio Pascal da santa liturgia - que, à frente do povo livre, iluminava, aquecia, enchia de paz e esperança os seus corações, embora fosse noite.
Ecoa, assim, dos seus lábios a mesma alegria gerada no coração das mulheres, de Maria Madalena, de Pedro, a quem acompanhou, dos demais Apóstolos, de Tomé, enfim, de toda a Igreja, que até aos dias de hoje não cessa de exultar jubilosa pela vida nova que o Senhor oferece a todos os que foram regenerados, em especial, pelo Baptismo.
O Aleluia é grito de Vida Nova e de vitória, porque a morte e o mal foram vencidos!
Pelas igrejas do mundo todo os fiéis cantaram aleluias ao Senhor durante o Tempo Pascal, anunciando que esta alegria não se há-de dissipar, mesmo diante das maiores dores ou incompreensíveis sofrimentos. A alegria do Senhor perdurará!
Não é na morte que tais dores, guerras e sofrimentos encontraram a resposta definitiva. Mas na resposta, que a morte encontrou na Vida Nova oferecida por Cristo, tais angústias perderam o seu poder. Desta forma, cumpria-se tudo o que estava escrito sobre Ele na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos, assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia? (Lc 24,44-46).
Caso não se creia nisso, não há formulação humana alguma, nem filosófica, nem antropológica, que seja capaz de olhar para o sofrimento e para a dor e de lhes configurar sinais de redenção, nem qualquer outro fim que os justifique.
João viu e acreditou (Jo 20,8).
Os sentimentos pascais do povo hebreu são marcados por três grandes acontecimentos: a passagem do Mar Vermelho, o Sinai e, quarenta anos mais tarde, a entrada na Terra Prometida. Já ali estava anunciada a alegria que não passa.
A Vida Nova de quem renasceu pela aspersão do Sangue do Cordeiro é cercada pelas alegrias de quem viu, nas águas do seu baptismo, o ódio original sendo destruído. Necessariamente, novos valores e novas atitudes vão nortear os seus comportamentos e, do seu coração, jamais será retirado o referencial último da esperança, que lhe assegura muito mais do que a imortalidade, oferece-lhe a Vida Eterna junto de Deus: o Céu.
Também surgiria uma nova organização para o Povo da Antiga Aliança. De facto, pelo dia que o Senhor fez para nós (Sl 117,24), pelo dia da alegria e dos cânticos, Jesus, a Pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se pedra angular, constituindo um novo edifício, uma nova organização. E instituiu os Apóstolos para a conduzirem, auxiliados pelo Seu Espírito. Esta é a nova e eterna Aliança no Sangue do Cordeiro.
Depois de encontrar nos santos o olhar precioso que têm para a realização definitiva em Deus, estou, particularmente, convencido que a saudade é uma posse parcial daquilo que um dia terei plenamente, é uma presença parcial em busca da presença total. “Sinto saudades do infinito... A minha saudade, já é um pedacinho da chegada, leve antegozo de um desfrutar sem fim”.
Santo Agostinho, ardendo de saudades, diria: “O meu coração está irrequieto... até que em Ti encontre o repouso”. São Francisco diria: “Irmã!”. Nós dizemos tudo isso com um só Aleluia.
Como São Paulo, podemos “suspirar pelas coisas celestes” e pelas fontes da eterna alegria. Podemos erguer, no mastro dessa vitória, a bandeira da cidadania celestial, pois, na Sinagoga de Cafarnaum, com palavras de decisão para muitos, Cristo Jesus prometeu-nos e, pela sua Morte e Ressurreição, nos mereceu a vida eterna: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6,54).
As alegrias pascais, cujos sinais de paz acenam à presença do ressuscitado, suscitam no homem a fé nas promessas de Cristo e a esperança na Vida Eterna.
Apega-se, no entanto, às coisas vãs da vida, às coisas que passam, aqueles que se esquecem da ressurreição ou a desprezam, simplesmente: Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé (1Cr 15,14).
Aleluia! As grandes contradições do mundo e da História não dizem respeito mais à antiga contradição que havia entre a vida e a morte. A actual contradição da vida orbita entre o viver em Cristo, desfrutando das alegrias eternas, e o não viver para Cristo, acostumando-se com as seduções que, mais e mais, conduzem o coração do homem para a tristeza.
Enfim, porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então também vós aparecereis com Ele revestidos de glória (Cl 3,3-4). Os preciosos méritos de Cristo para a nossa Salvação conduzem a vida do que crê para a glória eterna. Parecem significar o mesmo apelo que Cristo fez para Tomé tocar com o dedo e colocar a mão nas feridas gloriosas do Seu Corpo Ressuscitado. Sorrir e não mais chorar. Apresentar a Deus a fé, ao invés da incredulidade. Não fracassar no meio das tribulações, mas alegrar-se sempre, sem interrupção.